O português Agostinho da Silva, que nasceu no Porto, defendeu a Lusofonia e a criação de um passaporte lusófono, deu aulas particulares ao ex-Presidente da República Mário Soares e, se estivesse vivo, celebraria hoje 106 anos.

George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto, a 13 de fevereiro de 1906, na travessa Barão de Nova Sintra, freguesia do Bonfim, numa família da pequena burguesia originária do sul do país, frequentou Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), concluindo a licenciatura com 20 valores. Morreu com 88 anos, a 3 de abril de 1994 em Lisboa, no Hospital de São Francisco Xavier.

Numa entrevista à Lusa, no âmbito do 106.º aniversário de Agostinho da Silva, Celeste Natário, responsável pelo Departamento de Filosofia da FLUP, destaca a “lusofonia” como um dos maiores legados que o filósofo e pedagogo português deixou e defendeu.

“Ele é a pessoa que pela primeira vez fala num passaporte lusófono”, conta Celeste Natário, recordando que Agostinho da Silva esteve ligado à criação do Instituto Camões e foi o “grande mentor” da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em que defendeu a “grande união” entre os países lusófonos, sem a “supremacia de ninguém”.

Para Agostinho da Silva, “Portugal era Portugal, era o Brasil, era África, era todo o espaço lusófono, ou seja todo o espaço em que a lusofonia, em que a língua portuguesa fosse falada”, afirma a professora de filosofia e cultura portuguesa.

Com a CPLP, a futura “Pátria de todos nós”, Agostinho declarou: “Do retângulo da Europa passámos para algo totalmente diferente. Agora, Portugal é todo o território de língua portuguesa. Os brasileiros poderão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos poderão chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa a Pátria de todos nós”.

Agostinho da Silva tinha também uma “perspetiva iberista”, ou seja, defendia uma federação de Portugal com a Espanha, conta Celeste Natário, lembrando uma das definições de Agostinho sobre o país: “Portugal esteve em todo o mundo. Só há um lugar em que Portugal não esteve: na Europa”.

Professor particular de Mário Soares, ex-Presidente da República, aquando a sua juventude, visita assídua à casa do ex-ministro da Justiça, Laborinho Lúcio, e admirado pelo ensaísta Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva é “corrido do ensino” em Portugal, na altura do Estado Novo, quando se negou a assinar um documento de compromisso a não pertencer à maçonaria.

“Ele autoexila-se, porque é professor no Ensino Secundário e aparece um documento em que todos os professores tinham de assinar, comprometendo-se a não pertencerem a nenhuma instituição de natureza maçónica e a nenhuma associação que tivesse esse tipo de ligação”, explica a professora.

Durante o exílio, Agostinho da Silva vive no Uruguai, em 1945, onde leciona História e Filosofia em escolas livres de Montevideu, vive também na Argentina, em 1946, onde organiza os cursos de Pedagogia Moderna para a Escola de Estudos Superiores de Buenos Aires e fixa-se no Rio de Janeiro, Brasil, entre 1948 e 1952, país onde funda várias universidades.

O pensador era um “ativista do humano” no sentido do engrandecimento do humano, que para ele tinha como base o “exercício da liberdade humana”, explica Celeste Natário.

Liberdade era algo que o filósofo portuense entendia como algo inerente ao próprio homem e, por isso, a sociedade não tinha mais nada que fazer se não “proporcionar as condições para que essa liberdade pudesse ser exercida”, refere a especialista da Universidade do Porto.

“Por isso é que ele vai ter um papel tão importante a nível pedagógico e a nível da sua própria conceção de educação e de instrução, porque vai valorizar duas premissas: ócio e alegria”.

Para Agostinho, o trabalho não deve ser entendido como algo que torna a nossa vida difícil, mas como algo que devemos fazer com prazer.

Há cerca de 50 anos, Agostinho da Silva já falava dos meios de comunicação e das novas tecnologias como uma forma positiva de libertar o homem de trabalhos menos interessantes e esse trabalho passaria a ser feito pelas máquinas e os humanos ficariam, sim, reservados a tudo o que tivesse a ver com a criatividade.

As civilizações clássicas são uma fonte para Agostinho da Silva, a tese dele é sobre “Teixeira de Pascoaes”, que para ele foi uma referência, e um dos autores que ele estudou e muito estimou foi Fernando Pessoa, chegando a conhecê-lo em Lisboa.

CCM // JGJ. – Lusa/Fim

Grande plano do Prof.Agostinho da Silva

Grande plano do Prof.Agostinho da Silva

Foto: LUSA,  05/04/2004