No excelente posfácio que escreveu para a nova edição, pela Companhia das Letras, do A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado, Affonso Romano de Sant’Anna surpreende muitos leitores, ao afirmar que a célebre personagem do romancista existiu mesmo: chamava-se Cabo Plutarco, e repousa no carneiro nº 6059 do Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Pura verdade, mas Affonso não contou toda a história, até pela carência de espaço para tanto… Quem o fez (com direito a foto e tudo, para que ninguém duvide) foi o escritor cearense José Helder de Souza (falecido há pouco tempo, em Brasília), num voluminho precioso com o título Cabo Plutarco, o Berro d’Água, que pouca gente leu, publicado que foi em Fortaleza pela Imprensa da Universidade Federal do Ceará, em 1982. Ao resgatar do esquecimento esse pequeno-grande livro de Zé Helder, o posfaciador faz ainda mais rica e interessante a figura imortalizada pelo baiano.

O cidadão tinha por nome Wilson Plutarco Rodrigues Lima, nascido em 1920 no município cearense de Sobral. Berro Dágua, portanto, não era baiano coisa nenhuma, mas natural da cidade em que Ciro Gomes iniciou sua carreira política. (Já que falamos nela, Sobral entrou para a história da ciência, pois lá, no dia 29 de maio de 1919, comprovou-se experimentalmente, pela primeira vez, o desvio da luz, conforme previsto por Einstein na Teoria da Relatividade. Mas isso é outra história…)

Emigrado para o Rio, Plutarco serviu como cabo no lº Batalhão de Caçadores de Petrópolis. Mas sua verdadeira e profunda vocação era a boêmia, a farra, a que se entregou com intensa devoção na companhia de bebuns que freqüentavam a Galeria Cruzeiro, no centro carioca. Para que se tenha idéia dos pinguços, um era conhecido por “Marechal de Fezes” (alusão a Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro), e outro, certamente por haver pertencido à Marinha, pela edificante alcunha de “Capitão-de-Mar-e-Merda”… A turma, como se vê, era um tanto próxima dos militares… Um terceiro gabava-se de viver desempregado há 42 anos, sustentado pelos colegas de mesa. Recorde capaz de ofender um Jorginho Guinle, que se orgulhava de jamais haver metido um prego quente numa barra de sabão…

Conta Zé Helder que Plutarco, certa vez, viajava do Rio para Fortaleza em um navio, ao encontro dos pais. Na escala em Salvador, o passageiro caiu na gandaia e esqueceu-se de voltar a bordo, perdido de amores pelas meninas da Cidade Baixa. Sorte dele: o navio chamava-se “Baependi”, posto a pique no litoral pernambucano por torpedos alemães. Em Fortaleza, a família chorava a morte do Cabo quando recebe um cabograma com o aviso de que perdera o navio, mas que tomara outro e já estava a caminho…

De tanto beber, Plutarco morre em abril de 1950 no Rio de Janeiro, aos 30 anos de idade. Durante a despedida, os amigos começam a beber em memória do companheiro que partia, como narra o pesquisador cearense: “Já com muitas doses de cana no bucho, os vapores subindo à cabeça, aqueles rapazes desprendidos, aquela gente folgazã só podia modificar a feição triste do velório, a tal ponto que a certa altura o próprio defunto passou a ter direito também às suas doses, o gargalo da garrafa enfiado na boca. No desvario, já no pingo da madrugada, as garrafas vazias e a sede e a ânsia de beber mais aumentando, os participantes daquela sentinela singular dispuseram-se a sair e ir buscar mais bebida. Injusto seria lá deixar sozinho o companheiro morto, e ele assim foi aluído do caixão e carregado em pé, um amigo de cada lado amparando-o pelo sovaco ou passando-lhe um dos braços pela nuca. Lá se foram pelo bucho da madrugada em busca de um bar, um daqueles que não têm hora para fechar suas portas.”

O dia já amanhecendo, põem Plutarco de volta no caixão — não sem antes tirar-lhe o paletó e os sapatos novinhos, comprados para que tivesse um enterro decente. Afinal de contas, ao contrário deles, o amigo não precisaria mais daqueles luxos… E assim o Cabo Plutarco subiu aos céus ou baixou aos infernos, ninguém jamais saberá, nos mesmos trajes com que viera ao mundo: completamente nu.

Essa história, Jorge Amado a ouviu em Fortaleza, em 1958, na caymmiana “Boate Maracangalha”, que não era propriamente uma boate, mas a residência do Dr. Zequinha de Moraes, advogado e agrônomo (ou “agrobacharel”, como se lia na placa que, por gozação, um amigo pusera na fachada…) Incompatibilizado com os donos de botecos próximos, Zequinha realizara o sonho de todo bebum: ter um bar na própria casa, para receber os amigos… Freqüentado por jornalistas e escritores, ali foi ter, uma noite, o então jovem romancista Jorge Amado, a quem contaram as peripécias que, em 1959, a revista Senhor publicaria como protagonizadas por Quincas Berro Dágua.

Em 1981, ao receber em Fortaleza o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Ceará, o próprio baiano revelou: “Homem de muitos amigos, tenho aqui, como em toda parte do Brasil, mesa posta em muitas casas e um copo à minha espera na confraria noturna dos últimos boêmios. Foram esses amigos que ainda vivem a aventura e o riso que me forneceram a idéia inicial de uma das minhas histórias mais divulgadas e melhor consideradas. Refiro-me à Morte e a morte de Quincas Berro Dágua. Esse vagabundo dos becos e ladeiras da cidade da Bahia, que hoje trafega mundo afora em mais de vinte línguas, em trinta países, que virou peça de teatro, balé, programa de televisão. Quincas Berro Dágua foi gerado em Fortaleza, onde brotou a idéia desse pequeno romance. Deram-me notícia de caso acontecido quando da morte de um boêmio, contaram-me como a solidariedade dos amigos prevaleceu na hora da ausência e transformou a dor da despedida em festa.”

Essa, a verdadeira história do cearense Wilson Plutarco Rodrigues Lima, o Cabo Plutarco, o Quincas Berro Dágua de Jorge Amado, essa pequena obra-prima da literatura mundial, tão cheia de vigor e de beleza quanto O velho e o mar, de Hemingway, e Bartleby, o escrivão, de Melville. Em homenagem a todos eles, ergamos os copos e entoemos em uníssono, como diz o meu amigo, e parceiro de chope, Afreimar Queiroz: “Bebamos a isso!”

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Edmílson Caminha

Professor, jornalista e escritor brasileiro, Edmílson Caminha é membro da Academia Brasiliense de Letras, do Pen Clube do Brasil, da Associação Brasileira de Imprensa e do conselho consultivo do Observatório da Língua Portuguesa. Publicou, entre outras obras, Lutar com palavras; Drummond, a lição do poeta; O professor, Beethoven e o ladrão e A solidão no Programa do Jô.

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