1 March 2021
Interior da igreja, em adiantado estado de degradação, vendo-se o altar ao fundo.

A secular fortaleza de Cambambe

Cambambe, Angola, 26 out (Lusa) – Uma intervenção de emergência na histórica fortaleza de Cambambe, no Cuanza Norte, permitiu evitar a destruição total do monumento, construído há 400 anos e que marcou a conquista do interior de Angola pelos portugueses.

Datado do século 17 e classificado como património histórico-cultural desde 1925, o que resta da construção, antigo presídio e ponto central do tráfico de escravos, foi intervencionado nos últimos meses pela Odebrecht, no âmbito da obra em curso para o reforço de potência da vizinha barragem de Cambambe.

No local, os técnicos da construtora brasileira chegaram a encontrar cerca de 20 árvores que cresciam literalmente das paredes da histórica fortaleza, que ameaça mesmo a ruína total, como explicou à Lusa o responsável do projeto de recuperação, o engenheiro Luís Pereira.

“O que foi feito até hoje foi uma operação de emergência para travar a degradação, para que dê tempo às pessoas para decidirem o que querem fazer do espaço”, apontou o técnico português, ao serviço da Odebrecht.

Do monumento original, sobranceiro ao Kwanza e ponto até onde o maior rio de Angola permitia a navegação, para o interior do país, aquando da chegada dos portugueses, restam apenas as paredes da fortaleza, do amuralhado e da igreja que existia no interior.

Construída em 1604, a fortaleza foi símbolo da penetração e conquista do interior do território angolano pelas forças portuguesas, através do rio, a única forma possível de progressão, à época.

Os trabalhos no que resta do monumento, em parceria com o Instituto Nacional do Património Cultural angolano, mobilizaram nos últimos meses cerca de 20 operários recrutados localmente pela Odebrecht. Estes realizaram a primeira intervenção de contenção da estrutura e eliminação da vegetação, seguida, já em outubro, da recomposição e reconstrução geométrica das paredes.

A intervenção, segundo Luís Pereira, deu à estrutura, antes em risco total, condições para “aguentar mais cerca de 20 anos”, sendo agora preciso definir o futuro a dar ao espaço. Pode passar por funções turísticas, de culto ou para a juventude de Cambambe, decisão que fica dependente do Governo angolano.

“Para a reabilitação, se houver oportunidade, em conjunto com o Ministério da Cultura e havendo tempo, a gente vai tocar nas restantes etapas”, disse também à Lusa o Tiago Vaga, responsável da Odebrecht no programa de responsabilidade social da barragem de Cambambe, obra que está avaliada em 1, 2 mil milhões de euros e que decorre a poucos quilómetros da fortaleza.

De acordo com os responsáveis da construtora brasileira, a Odebrecht já realizou a reabilitação de antigas fortalezas portuguesas no Brasil, conhecimentos utilizados no projeto de Cambambe.

As obras de contenção e reconstrução parcial, entretanto concluídas, recorreram ao sistema original do tempo colonial português, com argamassa de cal e arenito sob forma xistosa, a pedra original de Cambambe.

PVJ // VM – Lusa/Fim

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