9 March 2021
Sara Frederica Santa Maria prepara doces de Natal, no Portuguese Settlement, a três quilómetros do centro de Malaca, onde vivem cerca de mil descendentes de portugueses, Malásia, 18 de dezembro de 2015. O Natal dos descendentes dos portugueses em Malaca atrai milhares de pessoas ao bairro português da cidade, sobretudo pela decoração das ruas e das casas, mas também pela alegria e hospitalidade dos habitantes. ANDREIA NOGUEIRA/LUSA

A “primeira conferência das comunidades portuguesas asiáticas”

Malaca, 27 jun (Lusa) – A “primeira conferência das comunidades portuguesas asiáticas” arranca na terça-feira em Malaca para tentar sensibilizar os países lusófonos, em particular Portugal, para a ameaça de extinção que enfrentam comunidades que mantêm traços e identidades herdeiros da cultura portuguesa.

“É o início de um novo capítulo para os portugueses asiáticos”, disse hoje à Lusa Joseph Sta Maria, que preside à conferência, enquanto preparava os últimos detalhes para o encontro.

Joseph Sta Maria espera que algumas centenas de pessoas ouçam os conferencistas convidados na “Casa D’Albuquerque”, o nome da sala do hotel do bairro português de Malaca que vai acolher a conferência e que evoca o nome de Afonso de Albuquerque, que em 1511 conquistou a cidade.

Os nomes e as referências portuguesas são visíveis no bairro onde, na “portuguese square”, à beira-mar, os restaurantes como nomes como “lisbon” ou “Mello” oferecem “comida portuguesa” e por todo o lado se vê a bandeira verde e vermelha nacional.

No “portuguese stellement” (bairro português) vive uma comunidade católica, os “portugueses de Malaca”, que festeja o Natal e os santos populares e fala um crioulo que mistura português antigo com o malaio.

Não é a única comunidade deste tipo na Ásia e são estas culturas que os organizadores da conferência dizem ser urgente salvar. O objetivo é unir esforços com vista à sua preservação e fazer chegar a mensagem aos países que falam português, em especial, Portugal.

“Portugal tem responsabilidade moral em relação aos seus ‘filhos’ em toda a Ásia”, herdeiros da expansão marítima portuguesa dos séculos XVI e XVII, apesar de não serem cidadãos portugueses, considera Joseph Sta Maria, representante das minorias junto da administração de Malaca.

“Portugal tem de desempenhar agora o papel que lhe compete e convencer a CPLP e os países lusófonos ricos a salvarem a comunidade luso-asiática do desaparecimento. (….) Esperamos conseguir abrir os corações dos líderes portugueses e que eles vejam que a ameaça à identidade portuguesa na Ásia é real”, acrescentou.

Estão em Malaca, a convite da organização da conferência, entre outros, o líder histórico da resistência timorense, ex-Presidente e ex-primeiro-ministro e atual ministro de Timor-Leste Xanana Gusmão, os embaixadores de Portugal na Tailândia e na Indonésia e o presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), Fernando Nobre. Já a delegação da Assembleia da República que era esperada acabou por não viajar até à Malásia.

Joseph Sta Maria lamenta que os políticos portugueses não estejam representados, mas garante estar “muito contente” com as presenças confirmadas.

“Os que não vêm vão falhar algo histórico e vão arrepender-se de não ter vindo. Eu entendo que haja constrangimentos de tempo, mas falhar algo fantástico”, diz.

Ainda assim, está convicto de que a mensagem vai chegar a Portugal.

Representantes de comunidades de uma dezena de países estarão em Malaca nos dois dias da conferência: Malásia, Singapura, Indonésia, Sri Lanka, Austrália, Tailândia, Birmânia, Timor-Leste, China e Índia.

Em alguns casos, as comitivas incluem grupos musicais de inspiração portuguesa e que são exemplos concretos das manifestações culturais das comunidades luso-asiáticas.

Entre os conferencistas estão diversos académicos de universidades dos Estados Unidos, Indonésia, Áustria, Sri Lanka, Filipinas, Malásia e Austrália, com investigações relacionadas com a herança cultural portuguesa em diversos pontos do mundo.

MP // PJA – Lusa/fim
A estratégia cultural implementada por Afonso de Albuquerque durante a colonização de Malaca ainda se mantém viva na cidade malaia através de património material e imaterial e de uma comunidade que se assume como portuguesa, Malaca, Malásia, 14 de dezembro de 2015. Afonso de Albuquerque, a figura mais proeminente do antigo império português no Oriente, conquistou Malaca em 1511, mas, apesar de o domínio luso ter terminado em 1641, aquando da derrota contra os holandeses, a presença portuguesa mantém-se bem viva. Na imagem turistas junto às Porta de Santiago, o que resta da fortaleza mandada construir por Afonso de Albuquerque. ANDREIA NOGUEIRA / LUSA

A estratégia cultural implementada por Afonso de Albuquerque durante a colonização de Malaca ainda se mantém viva na cidade malaia através de património material e imaterial e de uma comunidade que se assume como portuguesa, Malaca, Malásia, 14 de dezembro de 2015. Afonso de Albuquerque, a figura mais proeminente do antigo império português no Oriente, conquistou Malaca em 1511, mas, apesar de o domínio luso ter terminado em 1641, aquando da derrota contra os holandeses, a presença portuguesa mantém-se bem viva. Na imagem turistas junto às Porta de Santiago, o que resta da fortaleza mandada construir por Afonso de Albuquerque. ANDREIA NOGUEIRA / LUSA

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