“É uma ilusão pensar que o fio da língua, como o de Ariana, basta para desenhar os contornos ou os meandros desse labirinto de nova espécie que foi – e continua sendo como nosso espaço simbólico – o finado império e as suas intrincadas malhas”. [Eduardo Lourenço, 1999]

No dia 28 de Agosto do ano passado, neste mesmo Jornal, através de um artigo de minha autoria, intitulado “O conceito de lusofonia e a concertação diplomática”, referi-me à necessidade de epistemologicamente se esclarecer, o que, nos dias de hoje, se entende por “lusofonia”.

A razão para tal reside no facto de a maioria das pessoas, mais a reboque de influências do que de evidências, usarem-no como sinónimo de Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) ou, simplesmente, de falantes da língua portuguesa, independentemente dos diferentes contextos (geográfico, político e sociocultural) dos falantes deste mesmo idioma.

De um conceito inexistente à aspiração de um projecto
De salientar, que o termo “lusofonia” parece ter surgido no período pós-colonial, já que o “Dicionário Prático Ilustrado”, editado, em 1977, pela Lello & Irmão Editores, com 2.026 páginas e mais de 100.000 vocábulos, à época, autointitulado de “Novo Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro”, é totalmente omisso em relação à palavra “lusofonia”, mas refere-se à palavra “luso” como sendo: o “nome do suposto fundador da raça lusitânica”; sinónimo de “Português”, de “Lusíada” e de “Lusitano”.

A Wikipédia (enciclopédia livre da internet) define, nos dias de hoje, a “lusofonia” como sendo “o conjunto de identidades culturais existentes em países, regiões, estados ou cidades falantes da língua portuguesa, como Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e por diversas pessoas e comunidades em todo o mundo”[sic].

Porém, o facto de a identidade social, segundo Henri Tajfel, ser definida, do ponto de vista psicossocial, como a “parte do auto-conceito dos indivíduos, que deriva do seu conhecimento, da sua pertença a um grupo social (ou grupos), conjuntamente com o valor e significado emocional dessa pertença”; ou, segundo o filósofo ghanês Kwame Anthony Appiah, como “uma coalescência de estilos de conduta, hábitos de pensamento e padrões de avaliação mutuamente correspondentes; em suma, um tipo coerente de psicologia social humana”; leva-nos a por em causa a definição de “lusofonia” apresentada pela Wikipédia.

Falar português, em diferentes “regiões, estados ou cidades”, não significa que todos os locutores da língua portuguesa passem a ter, obrigatoriamente, uma nova identidade, ou, no mínimo, uma identidade de sentido mais amplo, que se sobreponha a outras, de índole cultural ou política, que, naturalmente, lhes é intrínseca.

A língua portuguesa é somente uma “ferramenta” comunicacional de grupos de falantes que, em maior ou menor grau, dominam o mesmo código linguístico, podendo os mesmos ter, ou não, a mesma identidade cultural ou política.

Os usuários de um qualquer idioma são, todos eles, em igual circunstância, Ler o artigo completo (Jornal de Angola)

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