1 March 2021
O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, Lisboa, 13 de julho de 2016. MÁRIO CRUZ/LUSA

“A lusofonia não corresponde a um projeto neocolonialista”

O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes escreve desde os 15 anos e assume que os lugares por onde passou marcaram a sua escrita

O ministro da Cultura esteve como diplomata em Luanda, Madrid, Paris, Rio de Janeiro, Budapeste, Nova Deli e, entre outros locais e funções, também Paris. Antes de funcionário do Estado foi poeta, depois a política nem sempre lhe deu tempo para os versos, mas de há uns anos para cá tem vindo a dedicar-se à arte. Confessa que tantas paragens não moldaram a sua poesia, pelo contrário, libertou: “Enriqueci muito a minha experiência de vida e a minha maneira de ver as coisas com todas estas experiências”. Destaca Rio de Janeiro e Nova Deli. “Sem desprimor para outros locais”, avisa logo.

Acha que vai ser o mesmo poeta depois de deixar de ser ministro?

Nunca se sabe que poeta vamos ser ou não. Escrevo desde os 15 anos e atravessei diferentes fases da minha vida, percurso que se nota perfeitamente na sucessão de livros que publiquei pelos cortes no tempo. Portanto, não sei o que serei. “I know not what tomorrow will bring”, como diria Pessoa.

Há quem caracterize a lusofonia como uma nova tentativa de colonizar. Concorda?

A lusofonia não é um termo muito feliz – vem da francophonie -, mas também não é para se deitar fora como o bebé na água do banho.

A lusofonia não corresponde a um projeto neocolonialista nem neotropicalista. Se rejeitamos essas ideologias lusotropicalistas de que a nossa colonização foi muito bonita e boa, pois foi tão má e tão boa como as outras. O que muitas pessoas esquecem é que a nossa colonização, sendo obviamente tão racista e tão exploradora como as outras colonizações, tem características específicas. Quem as não estuda é que aplica toda a realidade à mesma grelha, e há muito a tendência nas críticas mais fortes à lusofonia a aplicação de uma grelha americana de interpretação à realidade colonial portuguesa.

Quanto à lusofonia, temos um entendimento muito grande entre as culturas dos países que falam português e existem muitas coisas em comum e sobre as quais podemos trabalhar para construir objetivos comuns.

É apenas isso, portanto deitar fora essa ideia dizendo que é neocolonialista é ridículo. Primeiro, porque Portugal nunca poderia ser um país neocolonialista. Segundo, a ideia do colonialismo cultural vem das teorias da dependência ou subalternidade – que tive ocasião de estudar na Índia – mas não se nos aplicam.

A relação entre o Reino Unido e os indianos não é a mesma relação entre os portugueses e os povos com que contactaram, há pois que manter uma posição de equilíbrio. A lusofonia é um termo aceitável sem a ganga lusotropical, não a devemos deitar fora.

O Plano Nacional de Leitura espelha ou não a nossa riqueza literária?

Vamos refazer o Plano, para ser mais inclusivo e menos restringido à área da educação básica e secundária. O propósito é aliar o trabalho das bibliotecas públicas e escolares de uma maneira mais sistemática e apoiada. Porque de vez em quando há que mexer nos cânones e voltar a chamar um autor como Branquinho da Fonseca, Ferreira de Castro ou Fernando Namora.

Falando de cânones, até há pouco tempo Camões era considerado o grande poeta nacional…

..E é…

…mas cada vez mais Fernando Pessoa tenta ficar-lhe com esse lugar?

Ele já tentava quando escreve a Mensagem porque aquilo é um anti-Lusíadas. O poeta, como dizia Harold Bloom, tem sempre uma referência que é uma espécie de pai contra quem ele luta. É uma espécie de coisa freudiana em que o poeta ao afirmar-se tem de ser contra a grandeza dos poetas que o precederam. Não quer ser um mero imitador e pretende introduzir uma rutura, e o grande poeta é isso que faz em relação aos grandes poetas do passado. Que Fernando Pessoa se tenha querido medir diretamente com Camões, aliás, ele próprio dizia que vinha aí o super Camões – que era ele. Eu não diria Fernando Pessoa primeiro e Camões segundo ou Camões primeiro e Pessoa segundo, são realmente os dois grandes poetas da nossa língua. Fernando Pessoa é de facto uma revolução na literatura mundial e não apenas na literatura portuguesa.

Nunca pensou criar heterónimos?

Eu? Não, Pessoa já o fez.

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