11O processo de decifração de uma escrita antiga é muito trabalhoso, atropelado por toda a sorte de frustrações, e incerto a respeito das suas conclusões… “Champollion que analisou mais de mil e quatrocentos signos da Pedra Roseta, para ser exato mil quatrocentos e dezanove hieróglifos, quando acabou os trabalhos abandonou a egiptologia e foi viver em New-York onde se estabeleceu com um negócio de compra e venda de móveis…”, disse-me um filólogo, um argentino de que não me recordo o nome, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, nos anos noventa. A Pedra Roseta, identificada na cidade com este nome, data de 196 a.C., quando o Egito era controlado pela Grécia, foi encontrada em 1799 por um oficial do exército francês e encontra-se no Museu Britânico. Pesa 760 quilos e apresenta o mesmo texto em três grafias, uma delas em grego antigo, o que facilitou a decifração dos símbolos egípcios. 

Lembrei-me da conversa com o filólogo argentino, depois de reler um conto meu, “A gravação”, que mais tarde deu título a uma coletânea de contos, editada em 1994. Nele, o narrador refere-se ao fato da linguagem trazer no seu fundo um rasgão, um buraco negro, um porão abafado e os significados terem uma intensidade incompreensível oriundos do proto mundo, o primeiro idioma falado pelo homem há cem mil anos. 

Quando terminei a leitura do conto, lembrei-me da longa conversa com o filólogo na Bienal de São Paulo, ambos convidados desta festa literária. Nessa conversa, ele referiu-se também à língua suméria, a primeira forma de escrita conhecida “ou, enfim, para ser mais preciso, eles foram responsáveis por adotar e expandir a invenção da escrita, entre 3100 e 3000 a.C. para atender às suas necessidades económicas uma vez que fundaram as primeiras cidades-estado e grandes templos e palácios. Foram o primeiro povo a habitar a região da Mesopotâmia, o atual Iraque entre os rios Tigre e Eufrades.” Depois acrescentou que os primeiros sinais escritos pelos sumérios são pictográficos e séculos mais tarde, estes sinais passaram a representar valores fonéticos e palavras. George Hughtinghton do departamento de arqueologia do Museu Britânico foi o decifrador da língua suméria. Morreu com pouco mais de 30 anos, internado numa clínica psiquiátrica nos Alpes suíços, os enfermeiros ouviam-no rir baixinho e balbuciar palavras numa língua desconhecida. “Na língua suméria, por ser escrita de forma parecida com uma charada, cada um dos signos cuneiformes pode significar o nome de um objeto ou uma função gramatical. É mais difícil decifrá-la do que tê-la inventado, não é de admirar que George Hughtinghton tenha enlouquecido, se é que me faço entender. Vamos beber alguma coisa no bar?” perguntou-me o pesquisador argentino. Fiz leves gestos de cabeça de que estava a entender e de aceitação para irmos ao bar, tanto quanto me recordo. Adiante.

No grande espaço de confraternização e bar, um ou outro escritor dava autógrafos, falava-se da possível chegada de Paulo Coelho e um jovem de cabelo muito comprido que lhe cobria os ombros recolhia assinaturas para um abaixo assinado sobre a necessidade urgente de políticas públicas de apoio à educação…a Bienal difunde a cultura em termos simbólicos que por sua vez gera ganhos económicos. “Cultura é um soft power com o apoio político do governo estadual. Sentamo-nos naquela mesa vaga, vou buscar dois cafés.” E continuámos a conversa.

Conta-se que depois de trabalhar longamente no texto escrito em sumério, o arqueólogo inglês após conseguir ler o primeiro fragmento saiu da sua sala para o corredor, começou a despir-se e gritou: “Após dois mil anos de silêncio, sou o primeiro a escutar essa voz.” (A grande maioria dos homens lamenta jamais ter recebido uma oportunidade na vida…George Hughtinghton teve-a, mas foi-lhe fatal.) Pouco tempo depois, morreria na clínica psiquiátrica com o diagnóstico de alguns especialistas de “revelação psicótica e mística”.

Já Champollion descobriu que a escrita egípcia representava palavras e letras tendo que se levar em conta o espaço como uma “variante interna da notação”. Discordava do seu superior, Kircher, que entendia cada hieróglifo como o sinal de uma ideia ou de um objeto. Quando o pesquisador francês compreendeu que não devia procurar a regularidade dos signos e sim a sua diferença começou de fato a decifrar a escrita. Trabalhou muitas semanas em casa sem ver ninguém e na primeira quinzena de março de 1822 terminou o trabalho e visitou o seu chefe no escritório. “Não há mais segredos”, consta que foi o que Champollion disse e não voltou a falar. Ficou mudo durante muito tempo e após superar uma profunda crise mudou-se para New-York.

Bem, a palavra escrita começou na Suméria e chegou, século após século à gravação na pedra, à impressão e á literatura. A Shakespeare, Cervantes, Camões, Proust, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Beckett, Musil…e James Joyce que, no século passado, revolucionou a ficção narrativa nomeadamente criando novas palavras. Entre elas a mais extensa constante do seu livro “Ulisses”: contransmagnificandjudeibumbatancialidade. Ele nunca se referiu ao seu significado. (O seu romance continua atual, no recente Festival de Teatro de Almada foi representado “Molly Bloom” – um dos monólogos mais conhecidos da literatura e do teatro, trata-se do final de “Ulisses” –  pela atriz Viviane de Muynck). Indago-me: nos próximos séculos pesquisadores investigarão o significado de palavras criadas por James Joyce? E enlouquecerão para decifrá-las?

Ao longo da História, escritores foram presos e mortos por livros que escreveram, alguns tornaram-se influenciadores e arautos, queimas de livros em praças públicas foram estimulados por regimes ditatoriais, polícias ainda percorrem livrarias para apreender exemplares censurados por governos de alguns países e… pessoas mudaram as suas vidas por livros que leram ou apenas frases que as tocaram. Como escreveu no seu diário o escritor norte-americano John Cheever, cito de cor: a literatura sempre foi salvação de condenados, inspirou os apaixonados, derrotou o desespero e talvez possa salvar o mundo.

Isto porque as propriedades universais da mente humana são idênticas nos mitos e refletem-se na literatura, “desdobradas em uma composição melódica como a música”.

Era aqui que eu queria chegar. A língua, em particular na sua forma literária à semelhança da música, pode ser visitada no reinaugurado Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. A Estação da Luz da Nossa Língua, como também é conhecido está agora dotada com as mais modernas técnicas museológicas. Foi inaugurada em 2006, em 2015 parte do prédio foi atingido por violento incêndio e é agora reinaugurado com a presença de vários presidentes de países de língua oficial portuguesa, nomeadamente de Marcelo Rebelo de Sousa de Portugal e vários antigos presidentes do Brasil. Não existe outro museu que mostre a nossa maneira de estar no mundo através da língua. Como aliás mostraram os sumérios, gregos, egípcios e outros povos através da pedra e de obras públicas.

Jacinto Rego de Almeida

Jean-Honoré Fragonard (francês, 1732 – 1806), Young Girl Reading, c. 1770, óleo sobre tela.

close
Subscreva as nossas informações
The following two tabs change content below.

Jacinto Rego de Almeida

Jacinto Rego de Almeida nasceu no ano de 1942 em Alcanhões (Santarém), onde reside atualmente. Entre 1968 e 2004 viveu no estrangeiro, exilado até 1974 e no exercício do cargo de conselheiro económico da Embaixada de Portugal no Brasil após a Revolução de 25 de abril. Os seus livros abrangem os domínios da crónica, conto, romance e literatura de viagem. Saber mais: https://www.wook.pt/autor/jacinto-rego-de-almeida/9638

últimos artigos de Jacinto Rego de Almeida (ver todos)

Partilhar