(intervenção realizada durante o “Seminário Internacional sobre os 25 anos da CPLP” – 11 de novembro de 2021, Lisboa, Portugal)

Boa tarde a todos.

É com muito gosto que integro o painel desse importante evento, sobretudo para falar sobre a Língua Portuguesa no mundo hoje. 

Agradeço, pois, o amável convite que me foi formulado pelos organizadores do Seminário Internacional relativo aos vinte e cinco da CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, cuja fundação, em 1996, foi forte e decisivamente impulsionada pelo saudoso Embaixador José Aparecido de Oliveira, a quem devemos render a melhor homenagem. 

Aproveito o ensejo para também prestar o devido tributo ao Embaixador Lauro Moreira, primeiro titular da representação brasileira exclusiva junto à Comunidade e atual presidente do Observatório da Língua Portuguesa, com quem tive o privilégio de organizar o livro “Nos vinte e cinco anos da CPLP”, a ser lançado em breve, no Brasil e em Portugal, pela Editora Del Rey. A referida publicação contém 15 textos fundamentais para a compreensão da trajetória da Comunidade, entre os quais valiosos ensaios assinados por quatro antigos secretários executivos da CPLP, a saber: Domingos Simões Pereira, Francisco Ribeiro Teles, Maria do Carmo Trovoada Silveira e Murade Murargy.

Única organização internacional idealizada em torno da promoção de uma língua, de seu repertório, de seu patrimônio e de seu impacto sobre uma vasta população de falantes, a CPLP dá o contorno institucional a importante e longevo fenômeno cultural, forjado a partir do Latim e consolidado, ao longo dos séculos, como idioma oficial de nove nações, em vários continentes. 

Um dos idiomas que mais circula pelo planeta, ao lado de outros poucos, como o inglês, o francês, o árabe e o espanhol, o português não perde o seu vigor. Pelo contrário. Tem sido capaz de ampliá-lo, principalmente nas últimas décadas, quando todos os levantamentos o apontam como um dos mais ativos em redes sociais como o facebook e o twitter, sem esquecer o you tube, plataforma de compartilhamento de vídeos no qual ele é, igualmente, língua massivamente difundida, sobretudo entre as novas gerações de crianças e de jovens, que cresceram sob a magia da imagem em movimento, especialmente as veiculadas pela internet, sucessora da televisão no posto de mídia mais influente do mundo. O whatsapp também precisa ser citado. Afinal, ele é, na contemporaneidade, um dos veículos mais populares no campo das interações humanas, seguido pelo Telegram, que cumpre as mesmas funções. Também neles o português comparece com inegável intensidade, ainda que sob formas novas, adaptadas ao meio e ao contexto em que se inserem.

Num tempo como o nosso, em que as tecnologias digitais exercem um poder cada vez maior, ordenando as comunicações humanas e interferindo até nos domínios da economia, da política e das disputas eleitorais, a presença da língua portuguesa nas mencionadas plataformas torna-se essencial para que atravesse, na plenitude de suas forças, as próximas décadas. 

Não posso, no entanto, na qualidade de jornalista e de Presidente da Academia Mineira de Letras, deixar de abordar dois aspectos que julgo essenciais para que a Língua Portuguesa prossiga, firme, em sua jornada sobre a Terra. Se sua atuação exuberante nas mais modernas plataformas de comunicação garante sua rápida e intensa circulação pelo globo, é em outras dimensões, quais sejam, a da Educação e a da produção literária, que ela alargará o seu poder de influir, de modo consistente e profundo, sobre a cultura humana.

Não há como ignorar nem atenuar a importância do ensino formal da Língua e a centralidade do papel da escola como o mais notável espaço para realizar tal tarefa, resguardada, é claro, toda a valiosa contribuição que a família puder fornecer nesse sentido, especialmente na infância. A aquisição do idioma se faz na espontaneidade das relações sociais, desde o primeiro dia de vida, mas a consciente apropriação do que ele oferece se dá de maneira sistematizada, que leva o indivíduo de falante a pleno falante e a uma condição que também inclui a habilidade da leitura e da expressão escrita, cruciais para a formação de um sujeito autônomo e livre e de um cidadão capaz de exercer integralmente os seus direitos e de atuar sobre a realidade, seja para a obtenção de seu sustento, seja para a concretização de seus sonhos.

Por tudo isso, é sempre importante destacar o trabalho dos profissionais que se dedicam a ensinar a Língua Portuguesa, em todos os níveis, desde a educação infantil até a formação universitária, passando pelo ensino fundamental e pelo médio. Também é fundamental valorizar o ofício dos pesquisadores da Língua, aqueles que investigam os seus mistérios e os seus meandros, e cujas reflexões, divulgadas em publicações ou no curso de congressos e seminários como esse, são essenciais para aumentar e refinar o nosso conhecimento sobre ela. 

Chamo a atenção, em particular, para os que se interessam pelas ricas tradições orais que compõem o denso repertório da expressão humana em língua portuguesa. Seus estudos oferecem uma contribuição inestimável ao que sabemos sobre o nosso idioma, sobretudo sobre as versões praticadas nas comunidades mais antigas ou mais isoladas, que puderam ou souberam conservar melhor hábitos linguísticos que nunca existiram em outras partes ou que desapareceram de vários outros sítios.

Dirijo também uma palavra especial aos que transformam o seu pensamento e a sua visão sobre o idioma nos livros didáticos conhecidos de todos nós, ferramentas cruciais no processo de formação e aprimoramento dos alunos e dos próprios docentes. No ano em que celebramos o centenário de nascimento de Paulo Freire, um dos maiores educadores de todos os tempos, nunca será demais sublinhar a importância da democratização da Educação e de toda a iniciativa voltada para alargar o acesso a ela. 

É preciso louvar – ainda no campo da Educação – o labor das instituições que se dedicam à difusão, ao ensino e à pesquisa da Língua Portuguesa como estratégia eficiente para aproximar os povos e as culturas. Aqui, cito o Instituto Camões, que tantos e tão preciosos serviços têm prestado ao idioma, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, o IILP, sediado na Cidade da Praia, em Cabo Verde, bem como as diversas cátedras de Língua Portuguesa espalhadas pelas mais prestigiadas universidades dos quatro cantos do planeta.

Quanto à produção literária, segunda dimensão que quero valorizar nessa breve locução, jamais será suficiente o que se falar a seu respeito. Na literatura moram a alma do idioma, os seus tesouros mais secretos, seus bens mais valiosos, sua esperança de permanecer e de transcender. Cabe à literatura fixar a língua, dando a ela o poder de inventar e de reinventar a vida, de produzir sentidos e de alterá-los, fazendo-a infiltrar-se pelas camadas mais profundas da subjetividade humana. Não há um idioma politicamente forte sem uma literatura pujante, que se afirme internacionalmente, que seja hábil o suficiente para conquistar os leitores, estejam onde estiverem.

Em razão disso, é preciso fortalecer as ações em favor das literaturas em língua portuguesa e de seu mercado editorial. Os concursos e os prêmios literários, como o Camões, são gestos fundamentais nessa direção, porque popularizam o fazer literário, ajudando-o a ocupar espaços na comunidade e nos meios de comunicação, sem falar no reconhecimento à contribuição de personalidades marcantes da nossa vida cultural, como Paulina Chiziane, a ganhadora do Camões de 2021, autora de livros belíssimos como “Niketche – uma história de poligamia” e “O alegre canto da perdiz”. Não falta talento aos nossos escritores. Faltam divulgação e condição para publicar, para chegar até os leitores. O que se produz atualmente em todo a lusofonia é de alta qualidade e merece viajar por toda parte. O que é possível fazer para melhorar tal situação? Sei que a resposta não é uma só. São várias. 

Arrisco apenas uma primeira.

Por experiência própria, renovo minha aposta nos projetos que provocam forte engajamento, principalmente por fazerem parte da vida comunitária e social. Falo do poder das bibliotecas públicas, dos clubes de livro e de leitura, das feiras e das festas literárias, dos blogs e dos sites especializados em literatura. Falo do trabalho das academias de letras, sempre muito queridas e admiradas nas comunidades em que atuam. Um exemplo é a Academia Mineira, que tenho a alegria de presidir, desde logo convidando a todos para conhecer o seu site e as suas redes sociais.

Pois bem.

Respeitando rigorosamente o tempo que me foi concedido, quero terminar essa sucinta exposição agradecendo a oportunidade de partilhar algumas ideias, e, sobretudo, algumas inquietações, na esperança de que elas possam gerar perguntas cada vez mais sofisticadas, a ensejar respostas cada vez melhores.


 

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Rogério Faria Tavares

Rogério Faria Tavares nasceu em Minas Gerais, Brasil, em 1971. É jornalista, mestre em Direito Internacional e Doutor em Literatura. Tem o Diploma de Estudos Avançados em Direito Internacional e Relações Internacionais pela Universidade Autônoma de Madri. Está no segundo mandato como presidente da Academia Mineira de Letras. É membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do Instituto dos Advogados Brasileiros e do Pen Clube do Brasil.

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