Nunca haverá uma língua portuguesa uniforme, e ainda bem que assim é. Há variantes, que só a enriquecem, nos diversos países e continentes em que é utilizada. Para mim, e de certeza que para milhões de leitores, é sempre uma experiência deslumbrante verificar como esta língua, mantendo-se a mesma, se transfigura, como é plástica e flexível e nos revela potencialidades insuspeitadas noutros continentes, de Guimarães Rosa a Clarice Lispector, de Drummond de Andrade a Ruben Fonseca, de Mia Couto a José Craveirinha ou Suleiman Cassamo, de Manuel Rui a Germano Almeida, a Luis Cardoso e a todos os outros escritores (e são felizmente muitíssimo numerosos ) que a usam, lhe dão brilho e a expandem, através de novos modos não só de enunciar ou nomear, mas também de olhar e entender o mundo.
Enquanto escritora sinto que é estimulante a consciência de fazer parte de um conjunto muito vasto de produtores de textos, que, de diversos modos, noutros lugares do globo, utilizam a mesma língua do que eu.
Verifico aliás que o que se passa, no campo da literatura, com a língua portuguesa no mundo, é mais interessante do que o que aconteceu noutros casos. O exemplo mais flagrante é o do Império Britânico, que impôs uma férrea norma linguística às suas colónias, de tal modo que os autores das ex-colónias inglesas, da Índia por exemplo, escrevem ainda hoje no mesmo inglês padronizado de Oxford ou de Cambridge, quer vivam em Inglaterra ou na Índia. A nível da linguagem, não se distinguem dos escritores britânicos.
No caso português não é assim, e ainda bem, porque a diversidade nos enriquece. Cada país lusófono usa a língua portuguesa a seu modo, e obviamente que Portugal não é para aí chamado, e só pode regozijar-se com isso. E obviamente que também nenhum país lusófono nos pode pedir contas do uso que fazemos da língua que se formou aqui, e também é nossa, convém não esquecer, embora não tenhamos mais direito a ela do que qualquer dos outros. Tudo o que não respeite estes pressupostos é conversa, jogada política, defesa de interesses de alguns. Escrever batista em vez de baptista facilita a compreensão? Hum …, temos mais em que pensar. Vamos gastar milhões para uniformizar dez ou trinta ou uma centena de palavras? Para esse peditório já demos, várias vezes, em décadas anteriores, e adiantou alguma coisa, a não ser suscitar um novo peditório (que na verdade se assemelha mais a um “impositório”)? Vamos, de vez, pôr de lado essa ideia irracional e olhar a realidade: nos vários continentes a língua portuguesa ri, canta e dança livremente, e jura que nunca, mas nunca, será uniforme. E ainda bem. É um fantástico veículo de expressão, para quem souber usá-la.

PS-Deixo em pano de fundo uma nota, em letras bem gordas, para os míopes: O ensino da língua tem de ser prioritário em Portugal. É urgente que nas escolas os portugueses aprendam a usar correctamente a sua língua, o que está muito longe de acontecer. O primeiro passo é admitir que a gramática que forçamos os alunos a aprender não é uma gramática, mas uma “formatação” incrivelmente aborrecida.

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