3 March 2021

A língua portuguesa, ativo subaproveitado

Nos últimos anos da crise financeira que atingiu Portugal, o comércio externo foi, em contraciclo com a evolução do PIB, um dos setores que registou uma evolução persistentemente positiva, com as exportações a crescer de forma sustentada. Desde 2013 temos uma balança comercial positiva, facto muito raro na história da nossa economia, dado que é necessário recuar aos anos 40 para encontrar outros períodos com saldo positivo. No entanto, se analisarmos os países de destino das exportações, continuamos a verificar uma concentração excessiva, superior a 70%, nos países da União Europeia.

Esta predominância não é surpreendente, dado que estamos junto da comunidade com maior riqueza do mundo e, mais ainda, pertencemos a essa comunidade. De acordo com o modelo gravitacional, as trocas comerciais entre dois países são afetadas positivamente pela dimensão das suas economias e negativamente pela distância entre os países. Assim, a Espanha é, a grande distância, o primeiro parceiro comercial de Portugal e, apesar de possuir uma economia muito mais pequena, Portugal é o terceiro destino das exportações espanholas, a seguir à França e Alemanha.

José Paulo Esperança

José Paulo Esperança

No entanto, a distância geográfica pode ser compensada por fatores de proximidade – económica, legal ou cultural, em que a língua desempenha um papel relevante. O texto de Pankaj Ghemawat de 2001 na Harvard Business Review sublinhava que “a distância continua a ser importante”, mas que é necessário identificar os diferentes elementos da distância e não ficar focados apenas na dimensão geográfica. A proximidade cultural e as relações coloniais passadas são, a par da integração em comunidades aduaneiras, fatores que influenciam muito favoravelmente as trocas comerciais entre pares de países.

É por isso que as empresas dos países lusófonos têm um elemento facilitador de trocas comerciais que ainda não foi plenamente explorado, embora os níveis de aproveitamento desse ativo variem muito no âmbito dos países que integram a CPLP. S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde são os dois países com maior integração, dado que mais de 50% do seu comércio externo é feito com outros países lusófonos – e embora Portugal seja o principal parceiro, Angola e o Brasil começam a ter um peso significativo. A seguir vem Angola, sobretudo ao nível das importações em que os principais países fornecedores são Portugal e a China, mas em que o Brasil também começa a ter alguma expressão. A Guiné e Moçambique têm maiores relações com os seus vizinhos próximos – Senegal e África do Sul, respetivamente, mas mantêm um nível de trocas significativo com outros países lusófonos. É a maior economia, o Brasil, a que surge mais distanciada do espaço lusófono. Em 2015 Angola ocupou a 36ª posição ao nível das exportações brasileiras e Portugal a 43ª. Talvez algo esteja a mudar. Um fabricante brasileiro de pão de queijo, com sede em S. Paulo, reconhecia recentemente que não precisava de traduzir as embalagens quando exportava para países de expressão portuguesa.

A comunidade dos países lusófonos tem sido fortemente fustigada pela crise. Desde 2008, Portugal foi atingido pela crise financeira desencadeada pela falência de bancos americanos e pela estagnação da economia europeia. Angola viria a ser afetada pela queda do preço do petróleo e o Brasil pelo arrefecimento da economia chinesa. A excessiva concentração das economias em setores de atividade e mercados agrava a exposição aos ciclos económicos.

A língua portuguesa é a única língua global em que não existem fronteiras terrestres comuns. Deste modo, as economias são diferenciadas e potencialmente complementares, para além de o seu crescimento/declínio estar dessincronizado. A escassez de integração comercial no espaço lusófono pode ser explicada pela escassez de empresas de média/grande dimensão com potencial exportador e de internacionalização. No entanto a oportunidade existe, com grande potencial para o tecido empresarial e para a redução da severidade dos ciclos económicos da comunidade que partilha a língua de Camões.

José Paulo Esperança
Diretor da ISCTE Business SchoolGlobo LP

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