Os bons comunicadores conhecem a máxima de que comunicar bem é pensar em primeiro lugar no ouvinte ou no leitor. E pensar no ouvinte ou no leitor é fazer a escolha certa das palavras, que se desejam simples, comuns e reconhecidas por todos.

Quem comunica de forma complicada e difícil, usando um vocabulário hermético (sim, foi de propósito!), não comunica, mas antes isola, exclui, discrimina; está tão-somente a pensar em si e não em quem o ouve ou lê. 

Um pintor, por acaso, pinta para si? Um bom comunicador tem a sabedoria de escolher bem as palavras e o talento de as articular bem. Consegue fazer com que o leitor ou ouvinte se sinta “em sua casa”, encontrando no texto, oral ou escrito, um lugar confortável, bonito e aprazível.

Mas, afinal, o que é comunicar bem?

Comunicar bem é, do meu ponto de vista, uma arte. A arte de combinar de forma sábia os diferentes domínios que atravessam a língua: o léxico, a sintaxe, a semântica… E não só! Há muitos outros fatores que, a meu ver, trazem encanto à arte de bem comunicar. 

As palavras são a matéria-prima da comunicação, por isso, escolher as palavras certas é o primeiro passo para se comunicar bem. Falamos do léxico – o primeiro aspeto a ter em conta. A variedade e a riqueza lexical, bem como o uso adequado das palavras ao contexto contribuem em grande medida para o sucesso de uma comunicação. 

Falar e escrever bem é também combinar corretamente as palavras. Ora, aqui falamos de sintaxe, que é a componente da língua que se ocupa da boa articulação das palavras e das frases. Pois bem, essa combinação tem de ser perfeita, usando as concordâncias corretas e os complementos adequados, seguindo-se a boa articulação do texto – oral ou escrito – conferida pelos articuladores discursivos: contudo, além disso, em suma…

Depois de bem articuladas as palavras e as frases, devemos ter em conta o estilo linguístico, que é a maquilhagem da língua – que se quer bela, mas muito suave!

Os bem conhecidos há anos atrás, elo de ligação, facto verídico são exemplos de vícios de linguagem que se devem evitar. O excesso de estrangeirismos é também uma “praga a combater”. Sabemos que existe um certo glamour (queria dizer encanto, desculpem!) em dizer spa em vez de termas, resort em vez de estância, barbecue em vez de churrasco, mas a comunicação tem de ser confortável e não uma corrida de obstáculos. Comunicamos para o outro – e é isto que temos de ter sempre em mente.

Comunicar bem é, pois, saber articular habilmente as várias componentes da gramática: escolher bem as palavras, combiná-las o melhor possível e, por fim, colocar adornos estilísticos com conta, peso e medida. São estes adornos que conferem valor, carisma e impacto à nossa comunicação e que podem (ou não) tocar, emocionar e inspirar quem nos ouve ou lê.

Reinventando o clássico cliché “nós somos aquilo que comemos”, nós somos, sem sombra de dúvida, aquilo que comunicamos!

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Sandra Duarte Tavares

Sandra Duarte Tavares é doutoranda em Ciências da Comunicação e mestre em Linguística Portuguesa pela Faculdade de Letras de Lisboa. É professora convidada da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, na Formação Avançada em Técnicas de Alta Performance de Comunicação Oral, e da Universidade Lusófona na Licenciatura de Comunicação Aplicada. Colabora, desde 2008, com a RTP em programas televisivos e radiofónicos sobre Língua Portuguesa e é cronista na Revista Visão (edição digital), integrando a Bolsa de Especialistas. É autora e coautora de vários livros sobre Língua Portuguesa e Comunicação. Conta ainda com 12 anos de experiência como consultora linguística e formadora de Comunicação em diversas empresas e instituições.

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