Tem mil e uma utilidades.

É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia.

Coisas do português.

Gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: “Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?”. Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que é chamado de “a coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!”.

A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (…)”. Ou, “Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca.” Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas. Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta “Alguma coisa acontece no meu coração”, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim! (…) Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar.

Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa.

E tal coisa, e coisa e tal. O cara cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado.

Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: é que o salário não dá pra coisa nenhuma.

E tem a coisa pública que não funciona no Brasil desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando elege o seu candidato, o eleitor pensa: “Agora a coisa vai”. Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma, pois uma coisa é falar; outra é fazer. O eleitor já está cheio dessas coisas! Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para serem usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas?

E bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. E há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras coisas mais.

Mas, “deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida”, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: “amarás a Deus sobre todas as coisas”.

Francis Carlos Diniz

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