Um comentário sobre a variedade timorense da língua portuguesa

Acabo de ler um texto que falava sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma norma própria para a variedade timorense da língua de Luís Cardoso, Jorge Amado e Saramago.

Acho que, mesmo nos PALOP, a afirmação de uma norma própria não é tão pacífica como às vezes se pensa… Parece-me que Moçambique é onde foram dados mais passos nessa direção.

Há recetividade em relação à incorporação de itens lexicais específicos de cada um dos países, mas muito mais reticências em relação a outros aspetos.

Aqui alguns dos traços da variedade timorense do português que eu observava quando cheguei, em 2001, mantém-se. Por exemplo, construções do tipo “Escreve ainda” (transferência do “Hakerek lai“) são quase omnipresentes nas várias gerações de falantes, incluindo as crianças, e parece-me que estão cá para ficar.

Uma frase como “Deixa ele comer ainda” já me parece menos estável, porque pode ser simplesmente uma realização própria de interlíngua substituída por “Deixa-o comer ainda” quando o falante tiver um domínio melhor da língua.

No léxico, palavras como “liurai” estão perfeitamente incorporadas na variedade local do português, mas vejo que há vocábulos do português como “néli” que foram usados – em português – por muitas gerações de timorenses, e que parecem de utilização menos comum pela mocidade; creio que a razão é que os inputs são diversos, e muitos deles vêm de falantes de outras variedades do português (não a variedade timorense).

Os bordões linguísticos são uma área particularmente gira. Se prestarem atenção às cachopas e garotos timorenses a falar português vão ouvir coisas como “Foi ele !” ou “É este !”

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