Lisboa, 08 jun (Lusa) – As pontes culturais entre Portugal e China são muito antigas, mas a literatura, sobretudo a contemporânea, é fundamental para estreitar essas relações e proporcionar um maior conhecimento humano mútuo, destacou hoje o ministro da Cultura, Luís Castro Mendes.

“São muito antigas as pontes culturais entre Portugal e China, graças, em muito, ao papel que Macau desempenha. Macau é um lugar privilegiado de cruzamento entre Portugal e China, entre o Ocidente e o Oriente”, lembrou Luís Castro Mendes, no encerramento do 1º Fórum Literário Portugal-China, que hoje se realizou em Lisboa.

O ministro destacou o património cultural da literatura clássica e sublinhou que a literatura chinesa contemporânea constitui um território de descobrimento.

“É para começar a colmatar e a combater esta carência que se fez este fórum. Espero que tenha contribuído para estreitar relações e espero que tais pontes nos aproximem cada vez mais uns dos outros”, disse.

O fórum reuniu escritores portugueses e chineses, que debateram os temas da literatura, sociedade e inclusão.

“Nós podemos aprender muito uns com os outros nas áreas científicas, tecnológicas, mas há uma coisa muito importante que a literatura traz: é a compreensão do humano. Nós compreendemo-nos melhor uns aos outros como seres humanos através do conhecimento mútuo das nossas literaturas”, afirmou.

O debate abriu com a escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso, que, como foi destacado no início do Fórum pela presidente da Associação Chinesa de Escritores, Tie Ning, “não está publicada na China, mas vai ser”.

Para a autora de “O Retorno”, “a melhor maneira de contar a verdade é inventar a melhor mentira que a sirva” e uma história ficcionada bem contada é mais real, porque perdura no tempo e pertence a mais gente, do que a própria realidade efémera.

Falando de si, inventora de histórias desde a infância, o que lhe valeu a alcunha de mentirosa, Dulce Maria Cardoso mentia para provocar acontecimentos ou mudar a realidade e criar um mundo que lhe fosse mais confortável.

“Nesse sentido, é onde eu cruzo o eu com a sociedade onde vivo e o futuro que sonho”, afirmou.

Para José Luis Peixoto, no centro da literatura está a natureza humana e é isso que torna os livros universais e compreensíveis em qualquer lugar do mundo, independentemente do tempo, do espaço, da história e da cultura a que está ligado cada escritor.

“Por isso, um livro é compreensível aqui e do outro lado do mundo, porque partilhamos valores e ideias. A literatura tem a capacidade de ligar Portugal e China como a ponte sobre o Tejo”, afirmou, lembrando o “importantíssimo” papel do tradutor neste processo, “que faz um trabalho fascinante” – permitir a qualquer pessoa falar qualquer língua.

Gonçalo M. Tavares disse que a escrita é um trabalho solitário e que o trabalho do escritor é aproximar-se e afastar-se dos acontecimentos, para ter vários olhares.

Na opinião do autor, um escritor tem de ter uma visão do passado e do futuro, e ilustrou a ideia com uma personagem “que era tão vesga que, à quarta-feira, olhava ao mesmo tempo para o domingo passado e para o domingo seguinte”.

O escritor Zhan Wei, vice-presidente da Associação Chinesa de escritores, centrou a sua atenção na Internet e na forma como esta põe em risco o individualismo e a apreciação da arte.

“As pessoas vão-se afastar por não estarem habituadas a ter paciência. A era da internet é rápida, barulhenta, as pessoas perdem a paciência para o que não é assim. A apreciação da arte requer paciência. Hoje ninguém se consegue proteger contra este barulho. Na era da internet falamos todos com o mesmo tom, perdemos o individualismo”, afirmou Zhan Wei.

A escritora chinesa Chi Zijian considerou que a literatura, como criação individual, não se pode separar da sociedade e defendeu que um escritor deve conseguir integrar-se na sociedade para observar e exteriorizar-se, para conseguir dar vida à história que quer contar.

O escritor Su Tong, o mais conhecido em Portugal dos autores chineses que participaram no fórum, vencedor do Man Asian Literary Prize e finalista do Man Booker International Prize, recorreu a um conto do escritor norte-americano John Cheever – “The Enormous Radio” – para afirmar que toda a história reflete alguma coisa do escritor e da sociedade.

O conto narra a história de um casal que conseguia ouvir numa estação do seu rádio as conversas dos vizinhos, acabando essas vivências por se refletir nas suas próprias vidas.

“É como se fosse o escritor a fazer a imitação de algo invisível. Temos de nos tornar invisíveis e entrar no rádio gigante ou tornarmo-nos o próprio rádio, para escutar a pulsação da sociedade”.

AL // MAG – Lusa/Fim

 

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