Maputo, 18 jan (Lusa) – A escolha da “paz” como a palavra do ano em Moçambique em 2016 reflete a vontade do povo como um desejo unânime, considerou hoje a organização da iniciativa, que aconteceu pela primeira vez neste país.

“A palavra vencedora foi, acima de tudo, uma vontade do povo”, disse Miguel Milheiro, diretor-geral da Plural Editora em Moçambique, à margem da cerimónia de anúncio da palavra do ano, em Maputo,

Destacando que foi uma votação livre e que a amostra foi representativa, com cerca de dois mil votos, o diretor-geral da Plural Editora afirmou que a margem de diferença entre o termo “paz” e o segundo vocábulo classificado, “mamparra” (idiota, parvo, no calão usado no sul de Moçambique), com 17%, demonstra que o fim das confrontações militares parece ser um desejo unânime entre os moçambicanos.

“Esperamos que esta vontade seja alcançada”, referiu Miguel Milheiro, reiterando que foi uma votação fidedigna e transparente.

“Paz” foi escolhida num contexto de forte agravamento da crise política e militar entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), na sequência da recusa de o maior partido de oposição em reconhecer os resultados das eleições gerais de 2014, alegando fraude, e exigência de governar nas seis províncias onde reivindica vitória no escrutínio.

Associada a “paz”, a palavra “diálogo” ficou em sétimo, com 5%, numa referência às negociações entre Governo e Renamo em Maputo, na presença de mediação internacional, mas ainda sem resultados.

Mais previsível era “crise”, colocada no terceiro lugar com 16%, quando em 2016 Moçambique sofreu uma queda vertiginosa da moeda nacional, em proporção inversa à subida da inflação, e ainda a descida das exportações, falta de divisas e forte redução do apoio externo e investimento estrangeiro.

O tremendo aumento do custo de vida estará também associado à escolha da palavra “solidariedade”, no oitavo lugar, com 5%, num ano que ficou ainda marcado pelo escândalo das dívidas escondidas.

“Dívida” surge em quinto lugar na lista, com 8%, após ter sido revelado em abril de 2016 a existência de avultados empréstimos para fins de defesa, garantidos pelo Governo à revelia da Constituição e do parlamento, levando à interrupção dos financiamentos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos doadores do Orçamento do Estado e colocando a dívida pública a níveis insustentáveis.

“Educação” figura no sexto posto, com 8%, sinalizando uma preocupação com um setor crónico de Moçambique, onde, apesar de progressos nos últimos anos, cerca de 20% das crianças continuavam fora do primeiro ciclo em 2014, os casamentos prematuros e a guerra também vedaram o ensino a milhares de alunos, e 40% da população permanecia analfabeta, segundo dados de 2011.

Outros dois vocábulos, “tchilar”, no quarto lugar (11%), e “txunar” no nono (3%) são expressões mais uma vez associadas à linguagem de rua, e muito usadas nas campanhas publicitárias, a primeira com a conotação de divertimento e a segunda com significados diversos, entre fazer, organizar ou aprontar-se, numa referência a uma presumível origem da palavra num tipo de jeans femininas chamado “txuna baby”.

“Estas palavras enriquecem a língua portuguesa para o caso moçambicano e o facto de uma delas [tchilar] estar entre as cinco mais votadas é um sinal”, afirmou Miguel Milheiro.

A lista das dez palavras do ano é encerrada por “liberdade” (3%), num ano que ficou igualmente assinalado por assassínios de políticos, agressões a académicos, intimidações a jornalistas e líderes de opinião e até desincentivos públicos à participação numa manifestação contra a guerra e a crise.

A escolha foi realizada pela Plural Editores Moçambique, “através da análise de frequência e distribuição de uso das palavras e do relevo que elas alcançam”, tanto nos meios de comunicação como nas redes sociais, e que tem em consideração também as sugestões dos moçambicanos na página da iniciativa na Internet.

EYAC (HB) // EL – Lusa/Fimpaz palavra do ano
Partilhar