1 March 2021
Elvis de Oliveira sobrevivente do massacre do cemitério de Santa Cruz, mostra uma imagem em que visível a sua cicatriz de um corte vertical, feito com uma baioneta, que começa por baixo do umbigo e termina praticamente à altura do coração, patente na exposição de fotografia "Fitar" inaugurada hoje no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, Timor-Leste, 10 de novembro de 2016. "Fitar", cicatriz em tétum, é o nome da exposição que reúne 32 imagens de cicatrizes no corpo de 32 sobreviventes do massacre mais conhecido da história de Timor-Leste, cujo 25º aniversário se assinala no sábado. ACÁCIO PINTO/LUSA

25 anos depois do massacre no cemitério de Santa Cruz

Díli, 10 nov (Lusa) – A cicatriz torta e funda que Alex Samurai tem na coxa esquerda é apenas uma das três que tem no corpo, ecos permanentes dos disparos de soldados indonésios no cemitério timorense de Santa Cruz a 12 de novembro de 1991.

“Naquele dia eu estava com outros em cima do muro quando os militares começaram a disparar. Fui atingido e caí para dentro do cemitério. Levei três tiros, na perna, nas costas e no ombro”, recordou à Lusa, em frente a uma foto ampliada da sua cicatriz que integra uma exposição de fotografia inaugurada hoje no Cemitério de Santa Cruz, em Díli.

Hoje inspetor na Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) – atualmente no corpo de segurança pessoal do primeiro-ministro – recorda o momento que lhe deixou marcas para sempre.

“Não consegui fugir. Muitos outros fugiram ou começaram a rezar. Os militares começaram a entrar e a levantar os corpos. Meteram-me na estrada. Depois tiraram-me a camisa. Eu na altura tinha a minha farda da escola. Meteram-nos na traseira de um camião militar e levaram-me para o hospital militar”, recorda.

“Fitar”, cicatriz em tétum, é o nome da exposição que reúne 32 imagens de cicatrizes no corpo de 32 sobreviventes do massacre mais conhecido da história de Timor-Leste, cujo 25º aniversário se assinala no sábado.

Elvis de Oliveira é outro dos representados, numa imagem forte que mostra a cicatriz de um corte vertical, com uma baioneta, que começa por baixo do umbigo e termina praticamente à altura do coração.

“Levei 24 pontos. E mais dois aqui na cabeça”, explica, apontando para a imagem. Foi esfaqueado por um militar, perdeu os sentidos e quando acordou já estava no hospital militar.

O autor das imagens é Bernardino Soares, fotógrafo timorense que tinha seis anos quando soldados indonésios mataram quase 300 pessoas no que ficou conhecido como o massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991.

“Cada milímetro de cada cicatriz tem história, tem dor. A cicatriz marca o fim de uma ferida mas neste caso usamos a cicatriz como um início para entrar na história de 12 de novembro e destas personagens”, explicou Bernardino Soares à Lusa.

Permite contar a história do 12 de novembro de outra forma, explica, dando às vítimas espaço para recordar o que ocorreu e para transmitir essa memória aos mais jovens.

“Os sobreviventes nunca tinham mostrado as suas feridas. Aqui voluntariamente, mostram as cicatrizes. Queriam mostrar e contar a sua história”, disse.

“É uma oportunidade de falar também das cicatrizes da alma. De limpar. Isto não é uma exposição, é uma partilha. Quando se mostram estas fotos as cicatrizes vão passar a ser de todos e eles e elas, os sobreviventes, vão ficar mais leves, eu acho”, sublinhou.

No cemitério de Santa Cruz, hoje, reuniu as 32 imagens, tapadas com panos negros que depois foram retirados – cada sobrevivente inaugurou a sua – para mostrar publicamente, pela primeira vez em muitos casos, as marcas de há 25 anos.

“Tinha seis anos. Lembro-me. Ouvi os ruídos e o que tinha acontecido. Vi algumas vítimas, alguns tios e vizinhos com sangue. Na minha idade o impacto foi psicológico e entre os jovens gerou-se um sentimento de violência, de vingança”, recorda.

“Esse sentimento tornou-se um inimigo dentro de nós. Eu consegui libertar-me disto, desse sentimento, dessa atitude de vingança e tal”, explica.

A ideia de registar as cicatrizes dos sobreviventes surgiu há 3 anos, mas só há seis meses, numa conversa com o Comité 12 de Novembro, se consolidou o projeto e se começaram os primeiros contactos.

“Agora são 32. Mas há muitos mais. Esta foi só a primeira fase. Começamos com estes 32 mas queremos fazer mais, talvez um registo mais permanente ou um livro até”, explica.

Gregório Saldanha, presidente do Comité 12 de Novembro, também está entre as cicatrizes expostas, no seu caso na nádega, marca que ainda hoje lhe causa dor e lhe dificulta dormir.

“É importantíssimo mostrar as cicatrizes, marcas permanentes nos nossos corpos. Com o sentido de recordar aqueles momentos para que não se voltem a repetir e não se volte a fazer sofrer outros”, disse à Lusa.

“Recordamos também as cicatrizes como uma marca que relembra a tragédia, para nos dizer que temos que continuar a desenvolver Timor-Leste para ser um país melhor, evitar as práticas violentas. Somos referência para construir um timor melhor”, disse.

// APN – Lusa/Fim

 

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