2020 ou 20[2000]20. 

A propósito de efemérides

Annabela Rita

UL-FL-CLEPUL

A pandemia induz a uma suspensão que sugere a simetria numérica: 20[2000]20. Faz-nos olhar 20 anos para trás dos 3 zeros e 20 para diante deles. Como Janus. E esse olhar, porque somos humanistas, é informado dos nossos ‘museus imaginários’ (André Malraux), no caso, os meu, aqui e agora.

A primeira impressão é a de diferentes ritmos da existência nesse período, uma banalidade, que encontramos reflectida em imensos títulos: desde Pensar, rápido e devagar (2012), de Daniel Kahneman, até No Devagar Depressa dos Tempos – Antologia (2019), de Marcello Duarte Mathias, passando pelo documentário No devagar Depressa dos Tempos (2015), de Eliza Capai, até páginas na net como Why time flies… and how to slow it down, Time flies faster as you get older, but you can slow it down …,  Why does time fly … or not? It’s all in your mind, Why time seems to fly – or trickle – by – The Conversation, Why Does Time Fly When You’re Having Fun?, Why does time go slowly when you are young and fly when you are aging? … às vezes, espreita uma explicação, apesar de não resistir muito à análise da psicologia da percepção: 

“Adrian Bejan has explained the phenomenon: “The human mind senses time changing when the perceived images change. The present is different from the past because the mental viewing has changed, not because somebody’s clock rings. Days seemed to last longer in your youth because the young mind receives more images during one day than the same mind in old age.””

Passo, então, a folhear as décadas. Ciente de que privilegiarei, por motivações subjectivas, factualidade que me interessa mais: o que foi ritmando a vida e a reflexão sobre ela. Primeiro, o mais colectivo; depois, o mais individualizado; por fim, o mais específico (prémios). Terminarei com breve folheio das minhas leituras, assumindo, desde já, omissões devidas a incapacidade de integrar mais na ‘narrativa’ com que ficciono o meu itinerário ou a esquecimentos que me surpreenderão mal dê por eles…

  1. A propósito…

… de evocações, celebrações e homenagens:

Sinais de uma valorização humanista da genialidade (CI “O Génio nas Artes, nas Letras e nas Ciências”, 2020), da mundividência (Fernão de Magalhães, 2019), da mundivivência (150 anos do canal do Suez pela pena queirosiana, 2019), da universalidade (CIs CI “Um construtor da Modernidade. Lutero. Teses. 500 anos”, 2017, “Repensar Portugal, a Europa e a Globalização: 100 Anos Padre Manuel Antunes, SJ”, 2018) acompanham efemérides de factualidade convulsiva: 100 anos/ implantação da República (2010), 100 anos/ Dia do Armisticio (2018), 40 anos/25 de Abril de 1974 (2014)…

Nesta moldura de heterogeneidade feita, observemos alguns marcos na paisagem.

De grupos

Recordando grupos e a sua acção marcante na nossa modernidade. Inaugurando um novo modelo de celebração em rede: CIs “Cervantes & Shakespeare: 400 anos no diálogo das Artes” (2016), “100/Orpheu” (2015), “100/Futurismo”(2017). Mas também o CI “1867 – Um Ano de Gigantes. Raul Brandão, António Nobre, Camilo Pessanha” (2017).

De Autores 

Também evocadores de personalidades e da sua obra, mais individualmente. CIs de modelo tradicional como “Professor Manuel Sérgio: Obra e Pensamento (2018) ou dos 50 anos de José Régio (2019-20), mas, igualmente, os de multímodas realizações também em rede dedicados aos 40 anos de escrita literária de Miguel Real (2019) e de Teolinda Gersão (2020-21).

De Prémios

É sempre motivo de congratulação qualquer sinal de vitalidade de instituições dedicadas à Cultura, desprotegida, pese embora o discurso que a ‘empunha’ como flor na lapela… Quo vadis, Cultura?

É o caso dos prémios nas diferentes áreas da Cultura, da Literatura às outras Artes e às Ciências, nacionais e internacionais. Como, agora, o da 33ª edição do Prémio Pessoa, com um júri reduzido pelo Covid 19,  atribuído agora a Tiago Rodrigues (v. os 32 anteriores). Como os que a Associação Portuguesa de Escritores está a anunciar. Ou de concursos abertos, a decorrerem ou anunciados. Ou os mais transversais à cultura e numerosos da Sociedade Portuguesa de Autores, que celebram o Autor e os que os estudam e o divulgam. Ou os balanços e revisitações, como as que organiza Petar Petrov em O Romance Português Pós-25 de Abril. Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (2003-2014) (2005; 2ª ed. 2017) e Meridianos Lusófonos. Prémio Camões (2008-2016) (2018)

E o prémio vai para…

Na verdade, emergindo da conjuntura, os destaques (prémios, tops livreiros, balanços, crítica, etc.) são sinais estimulantes da leitura, mas esta realiza longa depuração: quantas obras tendem a ser esquecidas depois da celebradas aquando a sua publicação?…

Na galeria da Vida Literária (Prémio Vida Literária/APE- CGD), entre 1993 e 2016, desfilam nomes que acenderam pontos luminosos na nossa cartografia das Letras: Miguel Torga, José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen, Óscar Lopes, José Cardoso Pires, Eugénio de Andrade, Urbano Tavares Rodrigues, Mário Cesariny de Vasconcelos, Vítor Aguiar e Silva, Maria Helena da Rocha Pereira, João Rui de Sousa e Maria Velho da Costa e Manuel Alegre. 

Mas esta lista, como todas, não é nem poderia ser fechada, pois bastaria pensar em personalidades como António José Saraiva (f. 1993), autor que atravessou, com clarividente lição, a cultura portuguesa (O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, 1990, A Tertúlia Ocidental: Estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e outros, 1991), ou José Mattoso, que nos fez repensar a identidade nacional (Identificação de um país. Ensaio sobre as origens de Portugal, 1096-1325, 1985, A Identidade Nacional, 1998), demonstrando também que uma biografia pode ser o lugar de uma brilhante lição de como fazer História (D. Afonso Henriques, 2006), ou Eduardo Lourenço, mestre de gerações perdidas no seu O Labirinto da Saudade – Psicanálise Mítica do Destino Português (1978) feito Nau de Ícaro (1999) ou dos Loucos (Hieronymus Bosch) em busca de uma Europa desorientada, vogando em Cultura Líquida (Zigmunt Bauman) ao ritmo das ‘revisões da matéria’ de autores que, como Miguel Real, lhe redesenha o imaginário (Portugal: Ser e Representação, 1998, O Pensamento Português Contemporâneo 1890-2010 – O Labirinto da Razão e a Fome de Deus, 2011) em Novas Teorias (do Mal: Ensaio de Biopolítica, 2012, da Felicidade, 2013, do Sebastianismo, 2014) até que ele se suspende (Portugal: Um País Parado no meio do Caminho (2000-2015), 2015) em disfórico fim de ciclo (O Último Europeu: 2284, 2015). 

Ao lado destas listas, juntam-se as dos prémios concedidos pelo conjunto da obra e/ou por uma específica, as dedicadas a outras áreas disciplinares, as… Estamos na vertigem das listas, como Umberto Eco tão bem assinalou.

O contexto pandémico talvez favoreça estes balanços também. 

Afinal, sentimo-nos a viver a crónica de uma pandemia anunciada, em 2015, por Bill Gates numa conferência do projeto TED Talks, reforçando e recordando a previsão do relatório Global Trends 2015: A Dialogue About the Future With Non government Experts (Dez/2000) do National Intelligence Council, previsão agudizada no Global Trends 2020 – Mapping the Global Future  (2004), e cujo vírus está a ser estudado por investigadores, pelo menos, desde aí, pandemia abolindo fronteiras e mostrando a fragilidade do mundo globalizado… como assinalo em COmVIDa 19 em 2020: na ‘dança’ das representações. Da fenomenologia da percepção da pandemia (2020), expandindo e fundamentando o meu depoimento com o mesmo título no volume RESSURGIR: 40 perguntas sobre a pandemia (2020), com outros tantos participantes, em breve nas bancas.

2. Folheando as décadas

1980 ss. 

Nasce o JL em 1981 e, periodicamente, entrar-nos-á em casa para balanço e folheio, numa espécie de ritual da vida cultural portuguesa. Reconhecido “acervo único na cultura de língua portuguesa”, na expressão de José Carlos Vasconcelos, seu director. Este ano, celebra o seu 40º aniversário com um inquérito sobre as 20 obras que distinguiríamos nessas décadas, quase meio século de vida.

Em 1987, surgirá o Letras & Letras, mensal (Novembro/1987-Novembro/1990) e bimensal (até Julho/1993, dirigido por Joaquim de Matos, assumindo “pretende[r] ampliar a relação escritor-leitor mobilizando os que escrevem e sensibilizando os que lêem”, que, em passará a ser online a partir de Dezembro de 1997, coordenado por José Barbosa Machado, com o apoio do Centro de Informática da Universidade do Minho. E o seu título inspirará, talvez, uma revista académica do outro lado do Atlântico, A Letras & Letras dos programas de pós-graduação do ILEEL da Universidade Federal da Uberlândia.

Só bem mais tarde, em Maio de 2009, o As Artes entre As Letras, no norte, dirigido por Nassalete nascerá “para florir entre debates de ideias, da História e do Património, das Artes Plásticas”.

Essa década oferece-nos a revisitação a um Portugal anterior ao 25 de Abril: Memorial do Convento (1982), de José Saramago, nosso futuro Nobel, e Balada da Praia dos Cães (1982), de José Cardoso Pires, levado ao cinema por José Fonseca e Costa (1987), estendendo o olhar pela diáspora com Gente Feliz com Lágrimas (1988), de João de Melo. Ao lado, revolucionando o registo ensaístico, Abel Barros Baptista relê um dos nossos clássicos oitocentistas: O professor e o cemitério: rusga pelo “José Matias” de Eça de Queiroz entendido como percurso de assassinatos regulares (1982). 

António Quadros ilumina a segunda metade da década, coroando a longa linhagem de reflexão sobre a identidade nacional portuguesa de perspectiva messiânica, idealista e providencialista, perspectiva que o grupo da Filosofia Portuguesa cultivou, bebendo na longa e diversificada genealogia com raízes anteriores, até, ao mito de Ourique: presenteia-nos com PortugalRazão e Mistério em 1986 (vol. I) e em 1987 (vol. II) e com o anúncio de um  III volume cujo desaparecimento se tornará um mistério…

Aceitando que a década se encerra com 1990 (eterno debate sobre o início e o final de década, século, etc.), os Sonetos Românticos (1990), de Natália Correia, convocam a fortíssima tradição da lírica nacional onde brilham os nomes de camões, Bocage, Antero… Ensaio ficção e poesia em regresso ao passado.

1990 ss. 

A década seguinte tem uma espécie de Janus a meio olhando em diferentes sentidos. 

Por um lado, a literatura observa a arte em processo e as origens míticas da portugalidade cuja diversa configuração Mário Cláudio conclui com a última obra da sua Trilogia da Mão (Amadeu, 1984, Guilhermina, 1986, e Rosa, 1993).

Por outro lado, o verbo literário é lugar de uma reflexão existencial, como a ficcional de Um deus passeando pela brisa da tarde (1994), de Mário de Carvalho, ou a poética de Meditação sobre ruínas (1994), de Nuno Júdice. E abre-se em flor de agonia no final, convocando o expressionismo (Munch) em Grito (1997), de Rui Nunes, que o reconduzirá ao Nocturno Europeu (2018). 

Por fim, a letra estética é dominada pelo grande mito moderno que fantasmiza a Europa: Fausto, de J. W. Goethe, na premiada tradução de João Barrento (1998).

Ao longe, O Cânone Ocidental (1994), de Harold Bloom, impõe-se na nossa trajectória prologando-se em Como Ler e Porquê (2000) ou Génio (2003). Umberto Eco, dentre a sua mais diversificada bibliografia, continua as suas lições de leitura (Obra aberta, 1962, Lector in Fabula, 1979, Seis passeios pelos bosques da ficção, 1994). Com eles, o ensaio literário tornar-se-á best seller internacional. As suas vozes desaparecerão antes o final destas décadas, em 2019 e 2016, respectivamente. 

Em tempo de Meditação sobre ruínas (1994), de Nuno Júdice, Sophia de Mello Breyner e Andresen oficia a poesia com a sua notável Obra Poética (1990-91, 3 vols) e Eduardo Lourenço deixa-nos com um subtil e sibilino desafio à reflexão em Nós como futuro (catálogo da Expo 98):

“Portugal tem essa espécie de passado, como o navio-Europa com que, na aurora de um novo milénio, abordamos as margens de um novo tempo onde nos reconhecemos os mesmos, e já outros, por outra ser a navegação. Mas, para isso terá de revivê-lo como memória activa, sempre em revisitação e, mesmo, invenção. O passado também se inventa. O nosso e o dos outros. É uma das funções do presente /…/.” (Lisboa, Expo 98/Assírio & Alvim, 1997, pp. 29-31)

2000 ss.

A primeira década do séc. XXI abre com a ficção sob o signo da nova Física: a trilogia O princípio da Incerteza (Jóia de família, 2001, A alma dos ricos, 2002, e Os espaços em branco, 2003), de Agustina Bessa-Luís. 

Corresponde-lhe um olhar reflexivo dos géneros ao espelho de si mesmos em enquadramento de grande angular (História do Pensamento Estético em Portugal, 2009, de Fernando Guimarães): Uma questão de ouvido: ensaios de retórica e interpretação literária (2004), de Maria Lúcia Lepecki, Diário Quase Completo (2007), João Bigotte Chorão, O Género Intranquilo: Anatomia do Ensaio e do Fragmento (2010), João Barrento.

Com os clássicos em pano de fundo entre a épica e a tragédia (Odisseia, de Homero, na tradução de Frederico Lourenço, 2003, e o ensaio Pensar o Trágico, 2006, de José Pedro Serra), erguem-se, sucessivamente, representações de Portugal com a morte ao fundo, identificando indivíduo e comunidade: Portugal Hoje. O Medo de Existir (2004), de José Gil, A cova do lagarto (2007), de Filomena Marrona Beja, e O Último Minuto na Vida de S. (2007) e A Morte de Portugal (2007), de Miguel Real. 

Ao lado, Zygmunt Bauman proclama a Europa – Uma Aventura Inacabada (2004), George Steiner afirma A Ideia de Europa (2005) gerada nas tertúlias de café e Jorge Calado afirma em 2013: 

“Senti-me europeu quando, no Liceu de Pedro Nunes, decorei poemas de Alphonse de Lamartine; quando os meus pais me levaram ao Teatro Nacional para ver “O Sonho de uma Noite de Verão”; quando, antes de haver gravação integral, ouvi e vi “Parsifal” no São Carlos; quando comi a minha primeira pizza em Verona e apanhei uma diarreia; quando, na primeira viagem a Inglaterra, cheguei ao meu quarto do New College (Oxford) às 2 A.M.; quando entrei na Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia, e soube que lá jazia o coração de Chopin; quando vi as pinturas de Vilhelm Hammershoi em Copenhaga; quando deambulo pela Sintra de William Beckford e Richard Strauss.”

2010 ss.

A Europa e Portugal parecem, mesmo, ensaiar diálogos ao ritmo ditado por estudiosos a solo ou em articulação: Carlos Fiolhais, José Carlos Seabra Pereira, José Maria Silva Rosa, Jacinto Jardim, José Eduardo Franco, Paulo Mendes Pinto, Pedro Calafate e outros fazem Europa e Portugal entreolharem-se: A Europa ao Espelho de Portugal (2020) culmina um itinerário reflexivo que passa por obras como Europa de Leste e Portugal (2010), Europa de Leste e Portugal  (2010), A Europa Segundo Portugal (2012), Repensar a Europa (2013), e outras. Europa e Portugal emergindo  de conflituantes perspectivas: entre a tolerância (Portugal Tolerante, 2014) e o seu contrário (Dança dos Demónios – Intolerância em Portugal, 2009), a história da cultura  afirmativa (informando os Dicionários das Ordens, 2010, O Arquivo Secreto do Vaticano, 2011, O Esplendor da Austeridade, 2012, Portugal Católico, 2017) e a ‘em negativo’ (A Sombra dos Demónios para uma História da Cultura em Negativo, 2010, Dicionário dos Antis, 2018), com lugares da memória, sejam eles continentais (Oeiras com Personalidade, 2019) ou insulares (Madeira Global, 2019) ou figuras que se homenageiam (Francisco Nome de Santo, 2015,  Jesué Pinharanda Gomes – Pensar Português, 2019, e outros). Um Portugal e uma Europa olhando em frente “O Ocidente, futuro do passado” (Fernando Pessoa): um Portugal Vencedor (2015) com Empreendipédia (2019).

Nas realizações de central e transversal importância, a 2ª década do séc. XX parece abrir ao ritmo da valsa ensaiada pelo belíssimo e auto-reflexivo A Última Valsa de Chopin, (2010), de José Jorge Letria, a revisitação da nossa memória colectiva). 

Depois, a década seguiu ritmada pelas edições e lançamentos periódicos de 60 livros, supremo protagonismo de 2 séries de 30 obras verdadeiramente avassaladoras, favorecendo a reflexão sobre a nossa identidade e história culturais, projectos idealizados por José Eduardo Franco, ‘arqueólogo’ dos mitos da cultura portuguesa (O Mito de Portugal, 2000, e O Mito dos Jesuítas em Portugal e no Brasil, Séculos XVI-XX, 2006-2007), e coordenados em conjunto, uma com Pedro Calafate, professor de Filosofia de Língua Portuguesa na Universidade de Lisboa, coordenador de Portugal como Problema (2006) e director da História do Pensamento Filosófico Português (1999-2004), e outra com Carlos Fiolhais, professor de Física na Universidade de Coimbra, fundador e director do Centro Rómulo de Carvalho e criador da rede de Centros Ciência Viva, também com uma notável obra:

  • 2014: a Obra Completa do Padre António Vieira (30 vols), dirigida por Pedro Calafate e por José Eduardo Franco, sob a égide da Universidade de Lisboa, com c. de 3 centenas de colaboradores de todo o mundo, mega-equipa para os hábitos nacionais e realização coroando anteriores tentativas nunca concluídas de grandes nomes da cultura portuguesa. Foi “o maior projeto da história editorial portuguesa”, com 15.000 páginas, das quais, c. ¼ de inéditos ou parcialmente inéditos, nomeadamente teatro e poesia, que revelaram outras faces do “Imperador da Língua Portuguesa”. Com ela, que foi entregue ao Papa Francisco em recepção pessoal, multiplamente premiada (Prémio Aboim Sande Lemos da Universidade Católica Portuguesa e Prémio da Fundação Calouste Gulbenkian/2015), Portugal foi selecionado no Prémio de Literatura da UE e um dos seus coordenadores e pioneiro do projecto, José Eduardo Franco, também na sequência de outras realizações de fôlego, recebeu a Medalha de Mérito Cultural/Governo Português 2015
  • 2019: as Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, dirigidas por Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco, sob a  égide da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, do Ministério da Educação e da Biblioteca Nacional de Portugal, reuniu em 30 volumes organizados por temáticas, 80 obras pioneiras, entre tratados, ensaios, textos poéticos, romances, peças de teatro, livros pedagógicos, trabalhos de divulgação científica.” A maior operação científica interdisciplinar da cultura portuguesa a história, a medicina, a gastronomia, o teatro, a geografia, o direito, a arquitetura, a física, a educação moral, a gramática, a química, a música, a dignidade humana, a engenharia, a botânica, a pintura, a poesia, a pedagogia, os relatos de viagens, a arte de navegar”, segundo o Círculo de Leitores que a editou. Mereceu, justamente, o Prémio José Maria Gago /Divulgação Científica. 

Dobrando a década, regressam os velhos mitos identitários, mas tornados matéria estética, cena de visitação paródica a que Tiago Veiga (2011), de Mário Cláudio dá o mote: Uma Viagem à Índia (2010), de Gonçalo M. Tavares, e A Cidade de Ulisses (2011), de Teolinda Gersão. A viagem e o mundo, no mundo, na imaginação, na escrita. José Mattoso procurará Levantar o Céu, percorrendo Os Labirintos da Sabedoria (2012) e Eugénio Lisboa, faz das suas memórias as de uma comunidade em diáspora por diferentes palcos do mundo (Acta Est Fabula, 2012-17, 6 vols.). 

Vasco Graça Moura oferece-nos o fulgurante A Identidade Cultural Europeia (2013) antecipando A Ideia de Europa (2004), de George Steiner, O Regresso da Princesa Europa (2015) e Nobility of Spirit. A forgotten Ideal (2008), de Rob Riemen, dentre outros que folhearemos com deslumbramento.

Miguel Real e Teolinda Gersão encerram a década, celebrando um a seguir ao outro 40 anos de escrita literária (2019 e 2020-21, respectivamente), com programas compósitos de alargada participação e parceria, com encontros, exposições e livros a eles dedicados (caso do recém-publicado Teolinda Gersão: encenações, 2020, de minha autoria com prefácio de Miguel Real).

E tudo se vai entretecendo com gestos de defesa das Humanidades (a colecção Perigoso é…, já com os volumes I e II, organizados por Isabel Ponce de Leão e por mim mesma e outros a serem já organizados no estrangeiro), da Latinidade (A minha outra Pátria é a Latina, 2019, de Fernando Cristóvão) e da Literatura (o encantatório Pro Litteris, 2020, de Isabel Ponce de Leão, prefaciado por Miguel Real). 

As décadas parecem conduzir, inevitavelmente, pelos Degraus dos Parnaso (tomo de empréstimo o título do belíssimo livro de ensaios de M. S. Lourenço publicado em 1991), a uma apoteose e celebração pela letra ensaística desse inigualável scholar que é Onésimo Teotónio de Almeida: O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão (2018), premiado pela Gulbenkian, pela Academia Portuguesa de História pelo Solar Casa de Mateus e pela Sociedade Portuguesa de Autores.

No topo de uma ilha de livros, eis que se ergue, imediatamente antes do confinamento pandémico de Março/2020, Portugal. Razão e Mistério. A trilogia (2019), de António Quadros. 86 anos depois de Pessoa, 33 anos depois de se instalar “o fantasma do terceiro livro de Portugal, Razão e Mistério”, a última fala replica-se em epígrafe ao volume como “mensagem” aos concidadãos, recuperando a que encerra a Mensagem (1934) de Fernando Pessoa aos seus Fratres: “Acreditem em Portugal, porque Portugal está no mais fundo de cada um de vós e sem Portugal sereis menos do que sois.”(1993).

Esta é uma ficção possível de um itinerário pelas décadas nacionais onde se omitem os acasos e as necessidades que ritmaram a vida, a leitura, a escrita e a reflexão, no fundo, aquilo de que é feita a espuma dos dias (Boris Vian)… afinal, a espuma dissolve-se, como o provam as ondas do mar, mas deixam marca…

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