No 1º Encontro de Estudos do Português do Norte, encerrado na última quinta-feira em Manaus, pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), um tema que por várias semanas povoou o noticiário da imprensa do Sul do País com pesadas críticas ao Ministério da Educação (MEC) foi classificado por especialistas como uma questão mais política do que científica.

O alvo da polêmica, o livro adotado pelo Ministério da Educação (MEC) contendo frases e expressões usadas no cotidiano de pessoas iletradas, não incentiva o falar errado, ao contrário do que foi amplamente divulgado, garantiu o professor doutor Valteir Martins, coordenador do curso de Línguas da UEA.

Segundo ele, a forma como foi apresentada a questão, pouco produziu na conscientização a respeito da diversidade linguística.

Para ele, é unanimidade entre os pensadores da linguística que essas variações citadas no livro estão corretas dentro do seu contexto e não podem, de forma nenhuma, ser ridicularizadas.

O livro apenas mostra as variações existentes nesse enorme País, argumenta Valteir, ao lembrar que isso acontece em qualquer lugar do mundo. O importante é ensinar a forma correta de se expressar,   o que acontece no livro, observa.

VARIEDADES
Valteir argumenta que o estudo das variedades da LP junto aos graduandos de cursos de LP e professores é oportuno porque eles estarão nas escolas para ensinar as crianças e adolescentes.

Voltando à polêmica, ele enfatiza que o desejo dos linguistas é ver essa diversidade e variedade da língua respeitadas e isso se aprende na escola, assim como se aprende tambem a forma culta de falar.

“A variação é dada e não deve ser criticada porque tem o seu local para existir. Agora, o aluno precisa aprender a norma culta, isso é indiscutível.”

Outro especialista que considera as críticas ao livro adotado pelo MEC sem foco correto é Edson Santos da Silva, 23, mestrando em Linguística na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Linguística Aplicada em Educação (Neplae) da UEA.

Para ele, o posicionamento crítico sobre qualquer fenômeno, não só linguístico, deve ter um aprofundamento acurado para não fomentar o preconceito.

Da forma como foi discutido o assunto, para a comunidade leiga não foi bom porque não promoveu conscientização a respeito da diversidade, afirma Edson, para quem o debate importante a ser feito é o da conscientização, não da imposição, diz ele, criticando o fato de os linguistas terem sido ignorados nas matérias divulgadas na mídia.

“Isso porque o objetivo não foi o de esclarecer, mas apenas criticar o MEC”, argumentou.

Objetivo é ampliar discussão
O 1º Encontro de Estudos da Língua Portuguesa reuniu especialistas, professores e estudantes da área e foi realizado na Escola Normal Superior da UEA com o objetivo de discutir e ampliar o conhecimento dos professores na área, explicou o reitor da UEA, professor José Aldemir de Oliveira, para quem provocar discussões,   principalmente em torno de temas regionais, é uma das mais importantes missões da instituição.

Marcado pela realização de minicursos e mesas redondas com vários pesquisadores do Amazonas e de outros Estados do País, o 1º Encontro foi importante, , ainda, segundo o professor Valteir Martins, por permitir uma avaliação do que está sendo feito em relação à Língua Portuguesa e, dessa forma, ampliar o conhecimento dos profissionais que vão atuar em sala de aula.

Num dos minicursos, um tema importante para a região foi o falar do caboclo. Valteir exemplificou que o amazônida só utiliza seis das sete vogais tônicas existentes, que são aquelas nas quais se encontra o acento principal da palavra. Ele exemplifica o fato de o caboclo usar a vogal “u”  quando fala  “o” em caso de palavras como buto em vez de boto ou suco em vez de soco.

 

FONTE: A Crítica

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