encontro internacional

Comunicação de Renato Borges de Sousa no Encontro Internacional de Língua Portuguesa

RBS SkypeSenhoras e Senhores,

Agradeço o convite da Drª Renée Gomes, representante em Portugal da União Latina, para participar neste “Encontro Internacional de Língua Portuguesa”,tema a que, na sua vertente de “Português Língua Estrangeira” tenho dedicado toda a minha atividade nos últimos mais de 35 anos como Diretor do CIAL – Centro de Línguas, responsável pelo Departamento de Português Língua Estrangeira, criado em 1972.

Recordo que, nesse âmbito, tive o privilégio de participar em projetos conjuntos com a União Latina, sendo então seu Secretário-geral o Sr. Philippe Rossillon.

As considerações sobre o valor Económico da Língua Portuguesa que irei produzir resultam de uma atividade e vivência a nível internacional, numa área em que se organizam e divulgam os grandes fluxos de aprendentes de línguas estrangeiras, que o fazem por interesse e necessidade profissional, procurando, numa relevante percentagem, fazer uma estadia no país da língua que querem aprender, em regime de imersão.

Se bem que haja uma notável evolução no interesse e procura pela língua Portuguesa, bem como na forma como Portugal tem respondido a esse interesse e procura, não está ainda totalmente ultrapassado o défice que sempre senti da presença portuguesa nos diversos âmbitos de trabalho com os parceiros que promoviam a sua língua como elemento essencial para o desenrolar da vida económica a nível internacional.

Permito-me, como ponto de partida, integrar algo que ao longo dos longos anos de esforço de divulgação do Português Língua Estrangeira tive ocasião de dizer e fazer sentir a responsáveis nacionais pela internacionalização da Língua e Cultura Portuguesas, por esta ordem, Língua e Cultura.

Aliás, na introdução do Programa do presente “Encontro Internacional”,onde se referem os desafios que temos que vencer, se pode ler “não ocupa o lugar que lhe é devido” e, mais adiante, “a Língua Portuguesa foi relegada para segundo plano nas bases científicas mundiais e na sua representação nas grandes instituições de governação internacional”.

Assim, eis o que disse e senti ao longos dos anos e que, em grande parte, ainda se mantém:

A Língua Portuguesa é, porventura, a maior herança recebida dos nossos quase 9 séculos de história.

“O português é (talvez) a 5ª ou 6ª língua mais falada no mundo”

“O Português é, sem dúvida, a 3ª língua europeia mais falada no mundo”.

Estas verdades são ditas e escritas repetidamente, mais num sentido de alimentar a autoestima nacional do que exprimir a determinação de uma política da língua com objetivos concretos, servidos por uma estratégia que tenha em conta o facto de estarmos claramente numa guerra sem quartel pela fixação ou expansão de áreas de influência ou, dando-lhe outro nome, de blocos linguísticos.

Parece não haver uma crença forte por parte de muitos responsáveis de que a língua portuguesa se possa afirmar como língua internacional e ser um dos principais, poucos, veículos da comunicação global do século XXI.

Afirma-se com um misto de orgulho ferido e de sentimento nostálgico o que fomos no mundo e as marcas que deixámos, mas não parecemos capazes de assumir e gerir uma herança valiosa – a língua portuguesa – que pode e deve inserir-se no mundo atual da globalização que se vai implantando, apoiada em algumas, poucas, línguas veiculares.

Qual então, neste novo século, a capacidade da língua portuguesa se tornar uma verdadeira língua internacional?

São dois os argumentos-força que permitem admitir essa capacidade e estabelecer uma estratégia de afirmação em confronto com os outros blocos linguísticos: a dimensão humana e a dispersão geográfica.

O Português é a língua de mais de 200.000.000, dispersos por 8 países em 4 continentes. Conta, além disso, com pequenas bolsas histórico-culturais na Ásia, que poderão integrar uma política de penetração nesse continente.

O que aqui é referido como perspetivas e realidades da Língua Portuguesa salienta de modo incontornável a necessidade de uma política da Língua que, ainda não existe e assenta no pressuposto de que só no contexto lusófono esta pode aspirar ao estatuto de língua internacional.

Há, pois, que o obter.

Há que obter a expressão concreta e atuante da vontade política dos 8 países.

Esperemos que ela venha a existir e que seja reconhecido por todos que o interesse de cada um dos 8 países tem muito a ganhar em integrar um grande grupo linguístico cujas afinidades culturais lhe dão uma identidade própria. a ser assim, essa identidade e a dimensão valorizada do grupo de países oferecem uma muito maior capacidade de defender a nível internacional, interesses económicos, culturais, científicos ou de qualquer outra ordem. Para apresentar o exemplo mais flagrante dessa ideia, basta referir a “cumplicidade” que a todos os níveis se verifica entre Reino Unido, Estados Unidos e também os outros países que têm como elo comum exatamente uma língua língua inglesa.

Uma vez articulados os interesses comuns dentro do espaço lusófono, segue-se a fase de, com a força e a dimensão adquiridas pelo grupo, exportar a mensagem de que é essencial aprender a língua portuguesa a quem estabelece relações de qualquer tipo com países lusófonos.

Tendo tal e mente, podemos “repescar” uma ideia-chave posta em prática pelo Japão na sua fase de reconstrução e expansão económica:

“Eu compro na minha língua”

“Eu vendo na língua do meu cliente”

Há pois, também, um problema de atitude que convém cultivar no relacionamento com os falantes de outras línguas que se propõem vender-nos os seus produtos e serviços.

O inglês língua franca, decerto. Tal não é discutível no mundo atual, mas também no mundo atual se percebe que não é suficiente.

Em tempo recente, particularmente a partir de 1989, talvez por influência também do novo espírito que desabrochou na atual Alemanha Federal, tanto governos como multinacionais e organismos de âmbito mundial mostram uma particular atenção em dar aos seus agentes no terreno formação na língua dos países para onde vão actuar, por acreditarem que tal cria uma empatia de relacionamento que facilita bons resultados nos objetivos a atingir.

Para a definição de uma estratégia para a língua Portuguesa, que lhe permita enfrentar com sucesso o desafio da globalização, há que ter em conta algumas realidades:

– A Língua Portuguesa não atingiu ainda o patamar de “Língua Internacional”. Conforme já foi referido, tal não acontecerá no contexto lusófono e, neste momento, o país motor para tal é o Brasil.

A evolução de todo este processo terá no futuro outros países de relevo internacional, como Angola e todos os outros Africanos, dependendo do seu grau de desenvolvimento económico.

Não nos esqueçamos, o mundo concreto e real é um mundo prioritariamente guiado por interesses e não por afetividade ou simpatias.

Esta realidade já tem uma concretização com o nascimento do MERCOSUL, criado para fazer face à hegemonia dos Estados Unidos e tirando partido da proximidade linguística e cultural latina, de um grupo de países.

Temos aqui um exemplo a referir e aprofundar à escala europeia, com o Português e o Espanhol (Castelhano na América do Sul).

No caso de Portugal e reconhecendo o muito que tem sido feito pela divulgação da Língua e Cultura Portuguesas, não pode, no entanto, deixar de considerar-se que há um défice e grandes lacunas.

A grande motivação para a aprendizagem de uma língua estrangeira é de caráter profissional. Quer em serviços oferecidos, quer ao serviço de uma empresa.

A resposta a este tipo de necessidades e procura é dada a nível nacional em escola e institutos que ensinam a ritmo normalmente não-intensivo e de acordo com as disponibilidades de tempo e horários dos candidatos. Tal já s verifica em muitos países onde o português faz parte dos cursos de línguas oferecidas.

A nível internacional, conforme já referido, a necessidade de obter operacionalidade rápida na língua aprendida, explica o crescimento de cursos de imersão oferecidos para estrangeiros nos diferentes países. Em estudo feito pela Revista Language Travel Magazine, no espaço da Europa dos 21, os cursos oferecidos a estrangeiros mostravam as seguintes percentagens:

17% Universidades

83% Institutos privados

O grande e relevante esforço feito por Portugal tem-se centralizado no mundo académico, não havendo até aos nossos dias, apesar de diversas solicitações, uma entidade tutelar que apoie e divulgue, com critérios e controlo de qualidade, o ensino de Português Língua Estrangeira em Portugal.

Os critérios a definir tal atividade são, em princípio, três:

– Cursos organizados para avaliação de acordo com os princípios do QECR

– Organização de atividades socioculturais como elemento essencial de um ensino eficiente

– Apoio no alojamento dos estudantes estrangeiros, com prioridade para o alojamento em família portuguesa.

Para fazer uma comparação, tantas vezes utilizada, posso referir que, em Espanha, para além do apoio na divulgação internacional, foi criada uma entidade, o ERE – Espanhol Recurso Económico, que articula a ação dos agentes de ensino com a oferta global que Espanha divulga.

Também para se ter uma visão mais clara deste défice, de referir que na Europa, dos países com línguas de vocação internacional, Portugal é o único que não tem exames de Português Comercial organizados por ou em colaboração com a sua Câmara de Comércio Internacional.

Tudo aponta para que no futuro, dada a diversidade linguística na Europa e no mundo, a comunicação, a todos os níveis, se fará através do que chamaremos as “grandes autoestradas da comunicação, que não serão muitas, e que as línguas não internacionais comunicarão entre si através de uma ou outra dessas autoestradas linguísticas”.

E o Português tem potencialidades para ser uma delas.

Não foi negligenciada ou relegada para 2º plano a vertente cultural de todo este processo. Só que sem a capacidade de comunicar numa língua não é possível ter acesso à cultura em que esta se exprime.

O acesso a qualquer cultura pela via passiva da leitura ou apenas da tradução é o passado. O presente e o futuro são a aprendizagem activa e participativa,com o apoio das novas tecnologias que permitem oferecer ao aprendente a realidade vivida da língua que estuda e da cultura do “dia-a-dia” do “outro” que pretende entender,compreender e,eventualmente,convencer.

Obrigado pela vossa presença e atenção

Renato Borges de Sousa

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