Marc Stalmans (E), diretor científico do Parque da Gorongosa, e o biológo e escritor E.O. Wilson, Gorongosa, Moçambique, 24 de julho de 2011. Um projeto liderado pela paleoantropóloga e primatóloga portuguesa Susana Carvalho investiga a evolução do Parque Nacional da Gorongosa, no centro do Moçambique, o território menos conhecido do vale do Rift e que pode responder a alguns dos mistérios sobre a humanidade. LUSA
Marc Stalmans (E), diretor científico do Parque da Gorongosa, e o biológo e escritor E.O. Wilson, Gorongosa, Moçambique, 24 de julho de 2011. Um projeto liderado pela paleoantropóloga e primatóloga portuguesa Susana Carvalho investiga a evolução do Parque Nacional da Gorongosa, no centro do Moçambique, o território menos conhecido do vale do Rift e que pode responder a alguns dos mistérios sobre a humanidade. LUSA

Campo de estudo quase virgem atrai cientistas internacionais à Gorongosa

Gorongosa, Moçambique, 16 mar (Lusa) – Devastado e perante uma morte iminente, o Parque Nacional da Gorongosa (PNG) conseguiu inverter a perda da sua vida selvagem e tornar-se num centro de investigação de cientistas de elite, atraídos por um campo de estudo quase virgem no centro de Moçambique.

Pelas contas de Greg Carr, o filantropo norte-americano que dá o nome à fundação que acordou em 2007 o restauro do parque com o Governo moçambicano, são pelo menos 75 investigadores de 23 países e de alguns dos principais centros de conhecimento do mundo – Harvard, Princeton, Berkeley Oxford, Coimbra – para estudar leões, formigas, elefantes, morcegos, plantas, basicamente tudo.

“A Gorongosa oferece tremendas oportunidades para a investigação”, refere Marc Stalmans, diretor científico do PNG e que conheceu o Parque há pouco mais de dez anos, tendo ficado desde logo “esmagado” pelo seu “cenário majestoso”, apesar do vazio que se sentia de vida selvagem.

Parte da explicação para o súbito interesse científico na Gorongosa reside no seu ambiente diversificado e mudanças rápidas de habitat. Outra tem a ver paradoxalmente com o seu abandono durante e após a guerra civil em Moçambique, terminada em 1992, e que permite encontrar um dos territórios mais ricos do continente, mal estudado e ainda com um hiato de três décadas de quase eclipse, complicando uma equação já de si complexa.

“Moçambique e a Gorongosa têm um papel por nunca terem sido expostos ao pensamento ecológico moderno e técnicas modernas de pesquisa biológica”, segundo Stalmans, que ressalva também que muitas das ideias que prevalecem sobre comportamento animal obedecem ao pensamento existente na África do Sul, Namíbia e Zimbabué e “são boas mas para aqueles ambientes particulares”.

Com a contínua recuperação da vida selvagem, atestada pelas sucessivas contagens aéreas que o diretor científico coordenou, o PNG tem apostado nesta fase no conhecimento e para ser consequente com a atração de cientistas dotou-o de um laboratório de ponta, que reúne já uma coleção de referência de 25.895 exemplares de 4.845 espécies, catalogadas em códigos de barras, algumas das quais potencialmente novas para a ciência.

“Não há nada assim em Moçambique e provavelmente em África”, segundo o diretor do Laboratório, Piotr Naskrecki, um entomologista de Harvard que acompanhou as primeiras incursões no PNG de Edward O. Wilson, um dos mais importantes naturalistas do nosso tempo, escritor laureado com dois prémios Pulitzer e que já dedicou três obras à Gorongosa.

“É o mais importante parque no mundo. Tornou-se num centro modelo de pesquisa científica e educação, muito além de qualquer outro empreendimento comparável nos EUA ou outro lugar”, escreveu o investigador e professor emérito de Harvard de 87 anos, numa mensagem recente à administração do PNG.

E. O. Wilson é o nome do laboratório científico, inaugurado em 2014 e já em obras de ampliação para permitir análises moleculares e extração de ADN.

“Queremos mesmo perceber tudo o que se passa aqui e como as coisas interagem e se influenciam umas às outras”, afirma Naskrecki, e a razão prende-se não com a própria gestão do Parque, como combinar informações sobre o clima e aspetos físicos do ambiente, de modo a que possa “dizer com um certo grau de certeza o que vai acontecer daqui cinco anos, dez, cem…”

Esse conhecimento, prossegue, beneficia ainda as comunidades da zona-tampão do PNG, através de programas de agricultura sustentável e ainda de vigilância de doenças e pragas, que podem afetar não só os animais como as próprias pessoas.

Foi atrás destas condições e de um território quase intocado que Zak Pohlen e Callie Gesmundo iniciaram um projeto de investigação de aves de rapina, ao abrigo de um acordo entre o PNG e o Intermountain Bird Observatory, associado à Universidade de Boise, nos Estados Unidos.

“Este Parque está a caminhar para uma colaboração aberta com os cientistas, numa situação singular comparada com outros parques, que não têm de lidar com peças ausentes do ‘puzzle’ por causa da guerra”, atesta o investigador.

A pesquisa da dupla norte-americana tem justamente a ver com uma história de ausências, neste caso centrada no abutre africano e na falta de outros necrófagos, num território em que a grande fauna costuma ser a mais atraente mas não necessariamente a mais importante.

“Quando se pensa num parque africano, pensa-se em elefantes, leões e antílopes, mas uma das coisas que descobrimos foi que um dos animais mais importantes deste ecossistema são térmitas. Os seus montes criam santuários para plantas, aumentam a humidade dos solos e essas plantas fornecem alimento para os antílopes na época seca”, refere Piotr Naskrecki.

As raras condições técnicas e de alojamento que o PNG apresenta numa das regiões mais inóspitas do país servem igualmente os estudantes e investigadores moçambicanos, que encontram no Parque um campo de pesquisa e um lugar para a sua própria formação.

Greg Carr, presidente da Fundadão Carr, no Parque da Gorongosa, Moçambique, 29 de novembro de 2016. Um projeto liderado pela paleoantropóloga e primatóloga portuguesa Susana Carvalho investiga a evolução do Parque Nacional da Gorongosa, no centro do Moçambique, o território menos conhecido do vale do Rift e que pode responder a alguns dos mistérios sobre a humanidade. LUSA

Greg Carr, presidente da Fundadão Carr, no Parque da Gorongosa, Moçambique, 29 de novembro de 2016. LUSA

Ao longo do ano, os serviços científicos fornecem ‘workshops’ para académicos e alunos de instituições de Moçambique, com vista “a formar uma geração de moçambicanos para a conservação científica”, observou à Lusa Greg Carr, e que um dia “vão dirigir não só o Parque como uma nação inteira”.

O objetivo é ainda trazer gente do mundo ao parque e enviar gente do Parque ao mundo, num esforço de formação que já levou à primeira fornada de moçambicanos recrutados na zona-tampão e que, graças a bolsas e apoio de parceiros externos, fizeram ou estão a fazer os seus estudos superiores nos Estados Unidos e Portugal e ainda nas principais universidades de Moçambique.

O acordo de 25 anos entre a Fundação Carr e o Governo moçambicano, assinala o diretor científico do PNG, permite uma perspetiva de longo-prazo e “muito tempo para planear e implementar a componente do desenvolvimento”.

O PNG estará ainda a um quarto do seu potencial de pessoas envolvidas, segundo Marc Stalmans, apesar do “grande ‘momentum’” que está a experimentar, cruzando uma nova fronteira de interesse e que, a partir da publicação das investigações em curso, se tornará numa “bola de neve”.

HB // PJA – Lusa/Fim

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